Essa é uma das melhores categorias de listas do Cinema de Buteco simplesmente porque é a que melhor capta a essência do Brasil, o que inclui uma infinidade de diferentes realidades, perspectivas e modo de enxergar o mundo. Esperança, angústias e a vontade de mostrar a diversidade que o povo brasileiro carrega são características visíveis em cada obra e devo dizer que os cineastas do país, cada vez mais, são motivo de orgulho. Isso ficou um pouco piegas? Pode ter ficado, mas não há motivos para esconder a realidade.
10) O Homem Cordial (Iberê Carvalho)
Paulo Miklos, desde a sua estreia no cinema, com O Invasor (Beto Brandt, 2001), chama a atenção com personagens desajustados e peculiares, mostrando liberdade para transitar entre a comédia e o drama. Em O Homem Cordial, de Iberê Carvalho (O Último Cine Drive-in, 2015), ele é Aurélio, um músico que enfrenta as consequências da cultura do cancelamento e do linchamento virtual.
O filme começa com uma apresentação que marca o retorno da banda de Aurélio, famosa nos anos 80, porém a recepção por parte do público não é a das melhores. Fica claro, desde o começo, que a hostilidade destinada ao músico vem de um incidente que culminou na morte de um policial e que um garoto menor de idade chamado Mateus (Felipe Kenji) estava envolvido.
Iberê Carvalho constrói um retrato incômodo da vida urbana, sem meias-verdades, mas com situações corriqueiras. Aurélio e Mateus são personagens, mas podemos encontrar seus similares todos os dias, em cada esquina.
9) Chic Show (Emílio Domingos e Felipe Giuntini)
Uma das maiores riquezas do povo brasileiro é a diversidade cultural. Em cada canto do país é possível descobrir uma particularidade específica da região, e a música é um exemplo dessa pluralidade e, ao mesmo tempo, uma poderosa ferramenta social usada para combater o racismo e outras formas de opressão.
Entre as décadas de 1970 e 90, a festa de black music paulistana, o Chic Show, foi tendência e ajudou o jovem negro a criar sua própría identidade. Chic Show, o documentário de Emílio Domingos e Felipe Giuntini, mostra a importância desse movimento e tem depoimentos de Mano Brown, Emicida, Thaíde, Péricles e diversas outras personalidades fundamentais para a música paulistana. O criador do baile, Luiz Alberto da Silva, o Luizão, é quem conduz o documentário disponível na Globoplay após ser destaque no In-Edit (Festival do Documentário Musical) 2023.
8) Elis & Tom, Só Tinha de Ser Com Você (Roberto de Oliveira)
O documentário mostra como foi o processo de composição do álbum ” Elis e Tom“, lançado em 1974. A obra mostra como Elis precisava de um upgrade na carreira e isso só foi possível a se unir a Tom que já tinha um renome, apesar das divergências em alguns momentos, fez com que o álbum se tornasse ainda mais especial e com mais força, ambos aprenderam a trabalhar juntos e ceder o que era necessário para que as músicas refletissem o que realmente acreditavam. (Marcos Tadeu)
7) Medusa (Anita Rocha da Silveira)
A jovem Mari (Mariana Oliveira) está inserida em uma bolha social que preza pela submissão feminina e onde a aparência de mulher perfeita é supervalorizada, o que a faz tentar controlar tudo e a todos, ao lado das amigas. Para isso, as garotas formam uma gangue que têm como missão punir jovens como elas que têm a ousadia de não se dobrar a costumes ultrapassados e posicionamentos que já não cabem nos dias de hoje, incluindo o termo “bela, recatada e do lar”.
O amadurecimento do trabalho de Anita, de um longa para o outro, é perceptível. Sua direção, aliada à estética que usa no filme, se mostra mais firme, segura, ousada e consciente do que quer provocar. O clima sombrio do filme expõe a influência de Dario Argento (Suspiria) sem abrir mão de mostrar a própria identidade. O reconhecimento de Medusa consagra Anita Rocha da Silveira como um dos nomes do terror nacional que merecem ser acompanhados de perto, ao lado de Gabriela Amaral Almeida (O Animal Cordial) e Dennison Ramalho (Morto Não Fala).
6) Incompatível com a Vida (Eliza Capai)
A maternidade é complexa e vista de maneiras diferentes por cada indivíduo, porém sempre remete à vida. De alguma maneira, toda a complexidade da maternidade é, muitas vezes, escondida. Quando acrescentamos o luto a isso, tudo fica muito pior. Uma mulher que recebe o diagnóstico de que o bebê em sua barriga é incompatível com a vida precisa lidar com uma confusão de sentimentos que permeiam a sua alma e, ao mesmo tempo, com a expectativa do que as pessoas ao seu redor cultivam por si mesmas.
Em Incompatível com a Vida, a diretora Eliza Capai conversa com outras mulheres que tiveram vivências parecidas à sua, criando um potente e coral de vozes que refletem sobre temas universais: vida, morte, luto e políticas públicas que nos afetam. Por se tratar de um tema tão delicado, a gente percebe o cuidado e a sensibilidade aplicados à direção do documentário.
O documentário de Capai foi eleito o Melhor Documentário Brasileiro no festival É Tudo Verdade 2023, chamou atenção internacional e foi reeditado como curta-metragem para um artigo de opinião do jornal NY Times, Dear Supreme Court of Brazil, Use Your Power to Protect Women (Querido STF, Use seu poder para proteger as mulheres”).
5) Nosso Sonho (Eduardo Albergaria)
Nosso Sonho, cinebiografia da dupla Claudinho e Buchecha, conta a história dos artistas e mostra ao público a realidade brasileira das décadas de 1980 e 90. Quem acompanhou o sucesso estrondoso que a dupla fez a partir de 1996, quando Conquista furou a bolha carioca e conquistou o país inteiro, percebe este momento que reconhece quem presenciou algo “tão brasileiro”.
Este foi o momento em que o público conheceu Claudinho e Buchecha. O que a gente não sabia é que a história deles começou muito antes e bem distante dos holofotes, dos palcos dos programas Domingo Legal e Domingão do Faustão e dos clipes que passavam todos os dias na MTV.
A história de Cláudio e Claucirlei (o Buchecha) começa nos anos 80, quando os dois eram crianças. A origem humilde fez com que os garotos buscassem diversão em coisas simples da vida e que valorizassem a amizade.
Mas Nosso Sonho é mais do que isso, é um filme que mostra a realidade do jovem carioca que se permitia sonhar com uma vida melhor (Claudinho) e daquele que não acreditava ter o direito de pensar que um dia as coisas poderiam ser diferentes, que se achava feio para ser artista e que se limitava a ter um emprego simples porque não via em si mesmo o talento que carregava (Buchecha).
4) Propriedade (Daniel Bandeira)
A luta de classes tem muitas camadas, mas talvez uma de suas principais características seja o seu poder de mostrar o ser humano como ele é. Sem filtros, sem discurso politicamente correto ou modesto. Apenas a crueza e crueldade carregada por cada um.
O casal Roberto (Tavinho Teixeira) e Tereza (Mallu Galli) viaja para a propriedade rural do casal com o intuito de fazer com que a mulher relaxe. Ela está abalada por ter passado por um episódio de violência urbana. Mas eles não esperavam encontrar o clima de revolta, abandono e reivindicação entre os trabalhadores da fazenda.
Quando você tira de alguém todas as opções de viver com dignidade e ignora todo o sacrifício feito ao longo dos anos, não tem como esperar um comportamento submisso, visto que não há mais o que perder.
O thriller de Daniel Bandeira é angustiante e nos prende do começo ao fim. Mallu Galli se mostra uma verdadeira potência na tela entrega uma personagem que, apesar de aparentar fragilidade, encontra forças no instinto de sobrevivência.
3) Capitu e o Capítulo (Júlio Bressane)
Em Capitu e o Capítulo Júlio Bressane faz uma viagem antropofágica e psicológica pelo ato de se formar culturalmente e passar novamente por isso – essa tal de formação – ao retornar ao passado em pensamentos que se tornam imagens. Quase que como um ciclo da vida. Talvez até uma terapia. O filme é uma reinterpretação experimental de “Dom Casmurro” unindo isso com imagens da filmografia do próprio Bressane e suas próprias reflexões sobre a obra em forma de como ele encena isso num terreno livre de criação audiovisual e atitudes. E é voltando aos clássicos, aos tais cânones, aos esqueletos, as interpretações sejam elas as mais diversas, aos quadros, as fotografias, o casamento entre o barraco e o clássico, um mundo de detalhes superados como o jogo entre vestimentas e chapéus, os tais livros, os escritos, aos violinos, ás catedrais, voltando paras as imagens de arquivo e dos olhos enormes que observam seus personagens, que Bressane consegue trazer a vida uma ideia de que somos de fato testemunhas dos seus próprios anseios interpretativos e imagéticos sobre não apenas “Dom Casmurro”, mas sobre a arte em geral e as suas obsessões costumeiras.
A natureza, as flores, o mar, o feminino, a cor, a sexualidade, a relação humana, imagens que se repetem, a opressão de personagens enquadrados em grandes cenários fechados de suas casas, os diferentes pontos de vista e movimentações frenéticas na hora de filmar e zooms, salientando esse tom de uma viagem ao passado, pela arte – talvez seu tema central – e a pensamentos que não conseguem ser superados sobre as obras que nos marcam e marcam o mundo. Como esquecer Capitu? Como esquecer Bentinho? Como esquecer “Dom Casmurro”? Como esquecer os pensamentos sobre tal livro, seus achismos, estímulos com ela e o que isso gera ao se pensar na arte ao redor do mundo? Não tem como. Os pensamentos voltam e viajamos com eles. E Bressane nos oferece a mão para irmos com ele nessa. (Diego Quaglia)
2) Retratos Fantasmas (Kleber Mendonça Filho)
Retratos Fantasmas é sobre cinemas de ruas e o centro de Recife, uma análise de como ambos já tiveram seus momentos de luxo e glória e hoje estão abandonados. Mas é também sobre a mãe de Kleber, a casa de Kleber, o bairro que Kleber cresceu e as pessoas que Kleber conheceu ao estudar e trabalhar com cinema.
Em algum momento é comentado que os centros das cidades podem ser muito parecidos, e são, o documentário expõe e transmite a melancolia, a decadência e a beleza desse lugar, que nas palavras do diretor possui um clima do tipo: ‘não gosta de mim? Foda-se’, e eu concordo.
Porém, além disso, é sobre o processo criativo de um autor. Em seus filmes estão presentes cadeados, cupim, arquitetura, prédios feios, a importância do registro, a importância da história, mulheres fortes, cinema brasileiro. Com Retratos Fantasmas entendemos que a casa de O Som ao Redor é (ou foi) a casa do próprio diretor, e que a Clara de Aquarius talvez seja sua mãe.
Ao olhar para o passado, Kleber faz mais uma obra que contribui para o futuro, prevejo estudantes de cinema e jovens descolados em 2049 visitando a Recife de Kleber Mendonça Filho, caso a cidade não esteja dominada por farmácias e igrejas.
(Crítica completa de Marcelo Palermo)
1) Pedágio (Carolina Markowicz)
O segundo longa-metragem de Carolina Markowicz ilustra de maneira muito eficiente a opressão familiar e a homofobia. A partir da história de Suellen (Maeve Jinkings) e Tiquinho (Kauan Alvarenga), Pedágio faz o público mergulhar nos preconceitos enraizados da sociedade. Ela é uma mãe solo que trabalha como cobradora de um pedágio e, por medo do que as pessoas possam vir a falar do seu filho, ultrapassa barreiras que não deveria para garantir que o garoto seja “curado”. Aos poucos, as histórias paralelas se juntam à principal e nos mostra como cada ação, por menor que seja, tem consequências.
Maeve Jinkings e Kauan Alvarenga estão espetaculares na tela. Se entregam de maneira ímpar e demonstram as angústias e incertezas de seus personagens. A desenvoltura com que a relação de mãe e filho é mostrada permite que o espectador se sinta cúmplice de Tiquinho e confidente de Suellen. Depois de Carvão, Carolina Markowicz mostra de novo o domínio e a singularidade que tem como cineasta. Em um grande nome para o público acompanhar.