O Cinema de Buteco relembra a carreira do diretor Mike Nichols.
Michael Igor Peschkowsky, posteriormente conhecido como Mike Nichols, fugiu da Alemanha nazista para os Estados Unidos com apenas sete anos de idade e duas frases em inglês no repertório.
Começou sua carreira no teatro na década de 50, onde, junto com a atriz Elaine May, protagonizava um espetáculo cômico de improvisação, parte da cia. de Chicago Second City. De ator, Nichols passou a diretor de peças de sucesso.
A primeira oportunidade no cinema veio com Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?, um sucesso de crítica que já definia as marcas autorais de Nichols: a abordagem do íntimo de casais e da sexualidade que desafiava os tabus da época. Além disso, o filme é um dos únicos a conseguir indicações em todas as categorias elegíveis do Oscar, incluindo todas de elenco.
Esse apelo ao íntimo e à sexualidade e a capacidade de arrancar a melhor atuação de seu elenco se repetiram em seu filme posterior (e mais recentemente em Closer): A Primeira Noite de Um Homem, que lançava Dustin Hoffman e a música “Mrs. Robinson” ao estrelato. O longa deu a Nichols seu único Oscar de direção e é um dos mais bem sucedidos financeiramente da história. Chamado pela crítica de o novo Orson Welles, Nichols se tornou uma das vozes da revolução sexual da época e da nova geração de Hollywood.
Um dos únicos do clube EGOT (vencedores de Emmy, Grammy, Oscar e Tony Awards), Nichols faleceu no último mês, aos 83 anos. Para quem não conhece sua carreira brilhante, o Cinema de Buteco relembra aqui os seus melhores momentos:
Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (1966)
A intimidade dos amantes pode ser o maior catalisador de sentimentos primitivos de que se tem notícia no mundo dito civilizado. O primeiro filme de Mike Nichols é também a primeira de muitas de suas adaptações de peças e romances de sucesso – e justamente uma das melhores a retratar a complexidade da projeção psicológica num relacionamento amoroso. Elizabeth Taylor e Richard Burton, um casal bom de briga fora das telas, dão as melhores interpretações de suas carreiras e não é por acaso: o diretor nunca poupou energia teatral aos seus longos diálogos filmados, e esta força vital se dá principalmente por conta dos egos dos atores.
Volta e meia, os amantes se veem encarrascados pelo ego e recorrem ao jogo da autoafirmação para ratificar seus atrativos: aparência, status, aventuras, sex appeal. Nunca as questões mal-resolvidas, mágoas e obstáculos superados. Para a fuga, não se recomenda a autoavaliação. Mas um ego se esgota avaliando o outro, até que não sobre mais nenhuma desculpa para se esquecer de si mesmo. Se os egos dos amantes aguentarem todas estas turbulências, terão de volta o afeto mútuo outrora perdido. (Leonardo Francini)
A Primeira Noite de um Homem (1967)
A Primeira Noite de um Homem poderia ser apenas um filme bobo que contém um cara tentando compreender a vida adulta, uma menina rica e uma mulher infeliz à procura de novas aventuras. Não, ele conseguiu ser muito mais que isso. Afinal, a chamada “Geração Nova Hollywood” não produzia qualquer coisa, né? Ele foi capaz de retratar uma geração de jovens que estava disposta à seguir um caminho diferente ao dos seus pais, que, mesmo afortunados, viviam apenas pela aparência, até mesmo para ocultar a infelicidade de uma vida tão vazia. Atrás de um sentido para sua vida, Benjamin Braddock está incomodado com a vida medíocre que está prestes a seguir. Depois da sua formatura e o retorno à casa dos pais, a única coisa que lhe parece o sentido de viver e sorrir é o amor que foi despertado por Elaine.É a estreia de Dustin Hoffman, já com o papel principal, e de Mike Nichols, que se consolidou como um grande diretor também no cinema, que até então, só havia dirigido musicais na Broadway. Impecável em todos os detalhes, o filme é obrigatório para qualquer cinéfilo. Vale ser visto e revisto, para ser cada vez melhor compreendido. (Thaís Vieira)
Como na maioria dos trabalhos de Nichols, a força de A Primeira Noite de Um Homem está em enquadramentos e movimentos de câmera que simbolizam o distanciamento/aproximação dos personagens (a cena em que Elaine descobre o caso dos dois por exemplo), a trilha sonora clássica, feita por Simon & Garfunkel (a abertura com “Sounds of Silence”, a linda “April Come She Will”, e claro “Mrs. Robinson“), a direção que prioriza o trabalho dos atores (todo o elenco principal está ótimo) e nos diálogos muito bem escritos (as conversas entre Sra Robinson e Benjamin, onde aquela demostra total controle da situação ao mesmo tempo em que acha graça das atitudes imaturas de Benjamin, por exemplo). É um ótimo filme, que conta ainda com uma crítica bem interessante no final: na vida real existem “finais felizes” realmente? (João Paulo Andrade)
Ardil 22 (1970)
Um filme que nunca facilita a percepção do espectador. Navega sublime pelas diligências e ululações do protagonista (Alan Arkin), diante da estridência das contradições da lei e da justiça militar. Metáfora das brechas do sistema, penetradas por quem busca manter privilégios sobre a massa e se arma para isto. Nichols opta por iniciar a narrativa de absurdos com uma dose elevada de sátira, de uma forma bem mais colérica do que Doutor Fantástico, de Kubrick, mas aos poucos vai removendo seu deboche e revelando a loucura contida por debaixo dos panos. Uma loucura misógina, dominadora, selvagem.
Da fase dos filmes em scope do diretor, entre a década de 1960 e 1970, é adaptação de um sucesso literário, mas vanguarda incompreendida no retrato sobre a Segunda Guerra no cinema. Veio bem antes das impressões de Apocalypse Now, Nascido para Matar e Pecados de Guerra sobre o Vietnã – que, assim como Ardil 22, frisam o teor de conflitos internos androcentristas na lógica bélica, em especial a americana. A conversa com Kubrick, aliás, é notável: há uma reprise do clássico tema de Strauss que marca 2001 – Uma Odisseia no Espaço, mas se em 1968 ela dá trilha à descoberta da violência como método de conquista, em 1970 é usada para comprovar o desfavor que a mesma descoberta pode nos fazer. (Leonardo Francini)
Silkwood – O Retrato de Uma Coragem (1983)
Você é uma mulher operária da indústria, metalúrgica, trampa numa usina atômica. Sempre foi ativa, mesmo depois de ter dois filhos e se divorciar, deixando-os à guarda do pai. Bem-humorada, sagaz, atirada, curiosa, quebra pequenas regras do seu ambiente de trabalho, por distração ou por rebeldia. Afinal, é espontânea, e não má. E tampouco se abstrai de sua ética. Todos a conhecem desta maneira, e muitos se incomodam com isto, afinal, seus colegas querem apenas trabalhar, ganhar o seu e esconder os seus. Então, você começa a perceber uma série de irregularidades da fábrica, que colocam em risco não só a vida de todos os funcionários, como também a dos habitantes que vivem nos entornos. Algo que deveria incomodar muito mais do que você. No entanto, você vira bode expiatório, a culpada pelo vazamento de radioatividade que é, na verdade, um crime institucional. Resiste, procura seu sindicato, inicia uma luta para trazer os verdadeiros criminosos à luz – e se torna um incomodo ainda maior do que era antes.
A vida, esta roleta russa de fatores e encontros, é iluminada pelas pessoas que não seguem os padrões à risca, seja por descrença e descaso implícitos, seja pela consciência de que estes padrões atendem a interesses que não são delas, com o engajamento diante dos fatos. Como a História mostra, quase sempre ao ocultar, aquelxs que adentram a segunda categoria precisam desbravar consequências bem mais medonhas, pois encaram as circunstâncias com mais sensibilidade. Mike Nichols parece estar sempre adiante dos passos da protagonista Karen Silkwood (Meryl Streep) diante de seus dilemas, revelando sutilmente seus tropeços nos momentos mais vulneráveis. Numa das melhores cenas do filme, ela é detectada por exposição à radiação e, após um doloroso banho aplicado para remoção externa, fila seu cigarro empesteado de partículas radioativas e cancerígenas, para ficar mais tranquila. (Leonardo Francini)
Uma Segunda Chance (1991)
Henry leva um tiro que afeta seus movimentos e sua memória. E o pior de começar a melhorar é descobrir que ele não gosta de quem ele era. Será que a vida nos faz ir para tão longe de quem éramos há alguns anos?Um filme simples, sentimental, Uma Segunda Chance dá a Harrison Ford a oportunidade de viver um figurão egoísta que tem a chance de se tornar uma pessoa melhor, tirando de uma fatalidade algo positivo. Mike Nichols dá leveza à condução do longa, revelando certas informações nos momentos certos e nos presenteando com cenas sutis e doces, no caminho da recuperação de seu protagonista. (Marcelo Seabra)
Lobo (1994)
É muito divertido ver Jack Nicholson elevando à enésima potência aquele ar animalesco que ele já tem normalmente. Em Lobo, Nichols experimenta um novo gênero e traz ao terror toda a classe que costuma imprimir em seus longas. Pode não ser uma maravilha, mas ver os duelos entre Nicholson e James Spader e a tensão sexual que envolve Michelle Pfeiffer é bem satisfatório. Adivinhar que o colega de trabalho ingeriu bebida alcoólica logo de manhã é um poder engraçado para se ter. (Marcelo Seabra)
A Gaiola das Loucas (1996)
Robin Williams e Nathan Lane fazem um casal engraçadíssimo na refilmagem do francês A Gaiola das Loucas, mais uma comédia de Nichols. Os atores são ótimos com piadas sobre gays que são engraçadas sem denegrir ninguém, além de fazerem um ótimo contraponto com o tipo machão de Gene Hackman. Mais uma prova da versatilidade do diretor, que consegue tirar o máximo de seu elenco e fazer o público rir até! (Marcelo Seabra)
Segredos do Poder (1998)
Com o escândalo do vestido manchado ligando Bill Clinton a uma ex-estagiária da Casa Branca, era questão de tempo até alguém entrar de cabeça na história do presidente. Corajosamente, Nichols assumiu a adaptação do romance publicado anonimamente que cobre todo o período de campanha de Clinton – e não deixa de fora suas derrapadas. O idealismo de jovens que militam não consegue sobreviver à realidade, e traços de ficção são incluídos apenas para fingir não se tratar do retrato direto de Clinton – e evitar assim um processo de grandes proporções. (Marcelo Seabra)
Angels in America (2003)
Uma longa série sobre a chegada da AIDS reuniu um elenco muito interessante, que conta com Al Pacino, Meryl Streep e Emma Thompson, entre muitos outros. Nela, sob o comando de Nichols, Patrick Wilson teve sua primeira grande chance, vivendo um figurão que sofre o fato de ser gay em segredo, o que até hoje deve ser bem comum. Uma bela visão da época, discutindo questões políticas e sociais que são mais relevantes hoje do que nunca. (Marcelo Seabra)
Closer – Perto Demais (2004)
Um dos filmes definitivos sobre os relacionamentos amorosos do século 21, com atuações magistrais que dizem A verdade na expressão facial contradizendo o roteiro, Closer trata o amor com ironia, crueza, crueldade, expondo o egoísmo de seus personagens que buscam completar sua falta ou excesso de auto-estima… E ainda assim, como é bonito esse tal de amor, não? (Larissa Padron)
Já é repetitivo falar sobre isso, mas os personagens de Closer são quase que o arquétipo de todos aqueles que gostaram ou que gostam de alguém na vida!!! Aquele que é tão auto-confiante que não consegue admitir que perdeu (Larry?); aquele que, tão perdido na vida, não consegue se encontrar também no amor, se tornando assim egoísta (Dan?); aquela que opta sempre pelo que mais lhe convém, pela situação mais segura (Ana?); e aquela que parece ser a mais frágil, mas que se preserva durante todo o tempo pra não se ferir demais (ALICE!!!) (João Paulo Andrade)
Afinal, o que é preciso para se conseguir ser feliz ao lado de alguém? O que basta para confiar em outra pessoa? São questões que Closer nos transmite para uma reflexão que não tem conclusões. É realmente um excelente filme e recomendo a leitura do livro. Você passa a ter uma visão mais abrangente dos motivos de cada personagem. Recomendadíssimo! (Tullio Dias)