Falando com Deuses

Crítica: Falando com Deuses – Mostra de SP

 Falando com Deuses

38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #33

Quando escrevo sobre antologias, costumo começar meus textos comentando a irregularidade inerente ao formato: normalmente, filmes formados por vários segmentos independentes têm um ou outro “capítulo” mais consistente em meio a uma série de curtas decepcionantes que, por serem maioria, acabam prejudicando irremediavelmente a experiência como um todo. Mas no caso deste Falando com Deuses, projeto organizado pelo mexicano Guillermo Arriaga (ex-roteirista dos filmes de Alejandro González Iñárritu e diretor de Vidas que se Cruzam), nem mesmo essa “desculpa” pode ser utilizada, já que não há um segmento sequer que seja minimamente interessante para salvar o projeto.

Na teoria, Falando com Deuses se propõe a reunir cineastas de diversas regiões ao redor do globo para falar das religiões predominantes em cada uma delas. Dividido em nove segmentos – “Os Deuses”, dirigido por Warwick Thornton (Austrália), sobre as religiões aborígenes; “O Homem que Roubou um Pato”, dirigido por Hector Babenco (Brasil), sobre a umbanda; “A Sala de Deus”, dirigido por Mira Nair (Índia), sobre o misticismo indiano; “Sofrimentos”, dirigido por Hideo Nakata (Japão), sobre o budismo; “O Livro de Amós”, dirigido por Amos Gitai (Israel), sobre o judaísmo”; “A Confissão”, dirigido por Álex de la Iglesia (Espanha), sobre o catolicismo; “Nossa Vida”, dirigido por Emir Kusturica (Sérvia), sobre o cristianismo ortodoxo no leste europeu; “Kaboki”, dirigido por Bahman Ghobádi (Iraque), sobre o islamismo; e, finalmente, “O Sangue de Deus”, dirigido pelo próprio Arriaga (México), sobre o ateísmo (que, antes que eu me esqueça, não é uma religião) -, o longa acaba sendo, porém, uma coletânea de clichês raciais, étnicos e geográficos formada por roteiros homogeneamente ruins e histórias que não vão a lugar nenhum.

Martelando o estereótipo de cada povo retratado (mulher na índia ainda precisa de dote e só casa com um homem “arranjado” por sua família, muçulmanos passam o dia se ajoelhando em direção à sua Meca e pedem permissão a seus líderes antes de qualquer decisão, brasileiros moram na favela, gostam de futebol e frequentam o terreiro, etc), o projeto falha miseravelmente já ao não conseguir responder sua pergunta central: o que leva aqueles personagens (e os povos que representam) a adotar aquelas religiões? O que aquele negro pobre busca encontrar no terreiro de umbanda? E aquele trabalhador sérvio, que esperança encontra ao frequentar seu templo? Ou ainda, o que leva o personagem de Demian Bichir a não acreditar em nada e, nos minutos finais de sua vida, aparecer com aquela história envolvendo o “suicídio de Deus”?

A resposta é que nem os responsáveis por Falando com Deuses parecem saber ao certo o que, especificamente, querem dizer sobre a religiosidade humana – ou ao menos é essa a sensação que temos ao tentar acompanhar suas péssimas histórias.

Falando com Deuses (Words with Gods, México, 2014). Escrito e dirigido por Guillermo Arriaga, Hector Babenco, Álex de la Iglesia, Bahman Ghobadi, Aos Gitai, Emir Kusturica, Mira Nair, Hideo Nakata e Warwick Thornton. Com Yaël Abecassis, Demian Bichir, Richa Chadda, Inma Cuesta, Chico Diaz, Emilio Echevarría, Yilmaz Erdogan, Juan Fernández e Sarai Givaty.