documentario cassia cinema de buteco

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Cássia
é um raro documentário em que o fato de sua protagonista ter falecido há pouco tempo funciona a seu favor. Afinal de contas, a maior parte do seu público ainda tem bem nítida em sua mente a imagem da roqueira rebelde, agressiva, desbocada e “machona” que dominou os programas de TV, clipes da MTV, capas de revista e, claro, paradas de sucesso nas rádios brasileiras no final da década de 90 e início da de 00 – e é justamente por se aproveitar dessa persona pública de sua documentada e virá-la ao avesso, apresentando a mulher doce, companheira e bem humorada que ela era na vida pessoal, que o cineasta Paulo Henrique Fontenelle (dos igualmente magníficos Loki: Arnaldo Baptista e Dossiê Jango) cria uma obra bela e tocante como esta.

Traçando a trajetória artística de Cássia Eller desde o seu início no teatro e no circo até o auge de sua carreira na apresentação histórica no Rock in Rio do ano 2000, Cássia apresenta um riquíssimo arquivo de fotos e vídeos (outra vantagem de abordar um tema recente) que permitem que o espectador constate com os próprios olhos aquilo que os entrevistados relatam acerca de suas memórias ao lado da cantora – e logo nos primeiros minutos de projeção, quando os amigos da documentada começam a falar sobre sua timidez e humildade, Fontenelle mostra trechos de entrevistas e gravações de bastidores em que ela, ainda exibindo um sorriso alegre e descontraído de menina, se embaraça ao mostrar para a câmera os primeiros trocados que conseguiu ganhar fazendo música ou ao ser questionada sobre temas simples, como o fato de ter recentemente se mudado para o Rio de Janeiro.

Assim como a simplicidade de Cássia Eller não demora muito para conquistar o espectador, aliás, é impossível não ser arrebatado logo de cara pela força de sua voz e de suas interpretações tanto nos estúdios quanto nos palcos: capaz de impressionar Dave Grohl com sua versão “embromation” de “Smells Like Teen Spirit”, mas também de imprimir um universo de sentimentos e de doçura em uma demo tape amadora em que canta “Por Enquanto”, da Legião Urbana, a artista não precisava compor, como diz um dos entrevistados deste doc, para expressar suas dores, manifestar seu descontentamento ou protestar contra e hipocrisia a seu redor, imprimindo sua alma às canções compostas por parceiros ou por outros cantores e fazendo-as, dessa forma, também um pouco suas.

Genuinamente humilde a ponto de montar um esquema para se apresentar de surpresa em locais pobres e distantes e para poucas pessoas sem ganhar um tostão, Cássia Eller acabou sendo também uma figura importante para o avanço da luta pelos direitos dos homossexuais, proporcionando em vida provas suficientes para que, após sua morte, Maria Eugênia, sua companheira de longa data e segunda mãe de seu filho Francisco, vencesse a disputa judicial pela guarda do menino – e é revoltante (mas não surpreendente) relembrar a canalhice com a qual a grande mídia tratou sua morte, fazendo acusações sobre suposições ainda não investigadas, expondo seu filho pequeno ao ridículo e denegrindo sua imagem com o simples objetivo de vender mais revistas e jornais ou subir na audiência (algo não muito diferente do que a Veja, maior citada aqui, costuma fazer com a política brasileira, não é mesmo?).

Dando vida às imagens de arquivo ao utilizá-las de maneira inventiva e dinâmica através de zooms, efeitos que criam “camadas” dentro das fotografias e trucagens visuais das mais variadas, Paulo Henrique Fontenelle apresenta em Cássia uma personagem contraditória, complexa e humana que, apesar de nos fazer voltar a lamentar a perda de uma artista magnífica, o coloca muito próximo de se tornar não apenas um dos melhores, mas o melhor documentarista de sua geração.

Confira também a entrevista com o diretor Paulo Henrique Fontenelle.

poster cassia cinema de buteco

Cássia (Idem, Brasil, 2014). Escrito e dirigido por Paulo Henrique Fontenelle.