Não existe “cultura do cancelamento”

CULTURA DO CANCELAMENTO: você já leu ou ouviu esse termo muitas vezes antes, mas o Big Brother Brasil 21 colocou ele na sala de casa. Aparentemente, é um grave problema da nossa época. Na segunda-feira, 1º de Fevereiro, a produção do reality show absorveu o assunto e fez um jogo da discórdia em que os participantes tinham de acusar, entre seus adversários, “canceladores” e “cancelados”. O apresentador Tiago Leifert (autodenominado “cancelado”) explicou: o primeiro acredita estar sempre certo e ser capaz de ensinar aos outros o que pode ou não ser feito. Leifert esqueceu de avisar que essa pessoa normalmente está na outra posição. E que essa cultura, de fato, não existe.

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O BBB, vale lembrar, não tem qualquer compromisso de construir discussões complexas – ainda que o faça: é um programa de entretenimento. No entanto, ele levanta assuntos, mobiliza as redes sociais e pauta as outras mídias. Não à toa, a imprensa passou a falar diariamente do “cancelamento” desde o fim de Janeiro. No dia 12 de Fevereiro, por exemplo, o jornal O Globo publicou uma coluna de Pedro Doria intitulada “A febre”, a respeito do assunto. O colunista acusa as redes sociais de fomentar um cenário de intolerância e critica que não seja permitida a argumentação ao acusado. O autor está longe da originalidade e é só mais um a fazer coro à posição fixa dos grandes veículos. Não é difícil entender o porquê: vez ou outra, profissionais da mídia são, eles, os “cancelados”.

Cancelados?

Em 2017, o jornalista William Waack, então âncora do Jornal da Globo, proferiu uma fala racista, chamando um ocorrido perto do estúdio de “coisa de preto”. Repudiado na internet, foi demitido da emissora fluminense. Em novembro do ano passado, o comentarista Rodrigo Constantino tornou pública, no seu canal de Youtube, sua posição de relativização e apologia do estupro. Constrangido nas redes sociais, acabou demitido da rádio Jovem Pan, da TV Record e do jornal Correio do Povo. Dois casos clássicos de “cancelamento”. Hoje, Waack apresenta um jornal no horário nobre da CNN Brasil, enquanto Constantino retornou à Jovem Pan e assinou contratos com a RedeTV! e o Diário de S. Paulo.

A atração da TV Globo também oferece exemplos. No BBB 20, o youtuber Pyong Lee foi acusado de assediar duas colegas de confinamento (Marcela e Flayslane), enquanto sua esposa o esperava do lado de fora com seu filho recém-nascido. Nas redes, a movimentação contra as atitudes de Lee o tirou do jogo. Desde então, seu número de seguidores no Instagram praticamente quadruplicou e não lhe faltou espaço em entrevistas, programas e outros eventos que impulsionaram sua trajetória. Na edição atual, a cantora Karol Conká, eliminada ontem com 99,17% de rejeição, foi mais uma “vítima” da audiência. A razão foram as ofensas e humilhações que ela promoveu dentro da casa mais vigiada do Brasil. Surgiram, então, discussões a respeito de exageros na reação dos detratores. É difícil imaginar, porém, que o destino de Conká seja diferente dos de Lee, Waack ou Constantino. A artista colherá os lucros de sua participação no reality sem maiores constrangimentos. Estrutura, orientação e assessoria não lhe faltarão para isso.

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Na acusação da “cultura do cancelamento”, é comum ainda que se aponte a impossibilidade do acusado se arrepender, redimir ou argumentar. Nos quatro casos citados, as figuras tiveram múltiplas chances de admitir seus erros (Conká, se quiser, ainda terá), mas sempre preferiram acusar o mensageiro: alegam que houve exagero, foram mal interpretadas e até usam embriaguez como justificativa para seus equívocos. Não raro, culpam essa tal cultura. Na revista piauí de Setembro de 2020, Miguel Lago escreveu que “Por ironia, os influencers, justo eles, são os primeiros a reclamar de serem “cancelados”, pois perdem patrocínios, renda, popularidade. Beneficiaram-se da nova relação entre a celebridade e seus fãs, mas reclamam que, agora, a massa que cria a estrela também tem o poder de enfraquecê-la.”

Pode cancelar?

No seu ensaio, “Derrubem as estátuas”, Lago arremata com uma frase do rapper Emicida: “A pessoa não está sendo cancelada, ela está sendo exposta e responsabilizada pela forma irresponsável como compartilhou um pensamento.” O debate sobre as razões é justo, mas também o é que sejam expostos, responsabilizados, repudiados e criticados participantes do Big Brother Brasil, apresentadores(as), jornalistas, influenciadores(as) digitais e afins por seus posicionamentos públicos, porque todos são figuras públicas. Também é lícito que, se for o caso, percam espaço, contratos ou até o status de reconhecimento que alcançaram. Porque o público lhes proporcionou isso e só a ele cabe o julgamento. Esse é o jogo.

 

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