A PRIMEIRA VEZ QUE OUVI FALAR DE METATERROR FOI ATRAVÉS DE UM SEGUIDOR NO TWITTER. Fiquei curioso porque costumo gostar de novidades e conhecimento é algo essencial na vida de qualquer profissional. No entanto, não imaginava o que me esperava…
Minha pesquisa começou no Abaixo da Crítica, canal no YouTube, com um vídeo comentando o suposto subgênero e citando algumas referências modernas para buscar embasamento. Não tive a chance de conhecer o youtuber Pedro Sant’Anna ainda, mas devo fazer aqui alguns elogios.
Quando você planta uma ideia, você recebe atenção. Independente dessa ação ser positiva ou negativa, a verdade é que você deixa de ser um desconhecido. Considerando que o público cativo de quem escreve críticas de cinema muitas vezes é formado por outros críticos, isso significa deixar algumas pessoas emputecidas (com razão, embora elas não vejam os méritos dessa ação interpretada pela perspectiva de marketing).
Para o público comum, aqueles sedentos por novidades, e que nunca leram um livro sobre teoria e técnicas de cinema, ouvir “meta terror” soa como uma novidade incrível para “salvar” um gênero que definitivamente não precisa ser salvo…
O Pedro mandou bem com essa ideia, ainda que eu discorde completamente (mas eu sou crítico de cinema também. então…) O Pedro provavelmente tá cagando para o que eu penso sobre “meta terror”, pós-terror ou o diabo que outras pessoas tenham tentado usar para aproveitar a carona.
Só que o Abaixo da Crítica não inventou essa zuera que faz os fãs do gênero quererem arranhar o cu com as unhas. A verdade é que esse tal de “meta terror” já é velho na praça…
Antes do Meta Terror: Diferencie Horror do Terror
No Brasil é incomum diferenciarem “terror” de “horror”. Isso é uma questão levada a sério no exterior, mas que vale a pena saber e conhecer para rebater melhor quem tentar inventar um novo subgênero na semana que vem.
Terror é aquele tipo de produção em que o medo é trabalhado no espectador de forma subjetiva e sem a necessidade de apelar para violência gráfica. Esse é o caso de O Bebê de Rosemary e O Sexto Sentido, por exemplo.
Horror preza pela violência gráfica para causar o máximo de desconforto. O medo pode até vir acompanhado, mas a repulsa reina nessas produções, que possuem como representantes Sexta-feira 13, A Hora do Pesadelo e Pânico.
IMPORTANTE: Found Footage não é um subgênero, mas uma forma de linguagem cinematográfica que se aplica para vários gêneros, embora tenha ficado famoso no terror por causa de A Bruxa de Blair (1999).
A Origem do Meta Terror: o que é meta terror?
A polêmica teria começado em 2017, com um pretensioso crítico do The Guardian tentando inventar um subgênero chamado “pós-terror”. Numa total demonstração de carência para conquistar fama, ele disse que Ao Cair da Noite era um dos grandes representantes de um novo subgênero capaz de ser assustador e inventivo. Como jogada de marketing, nota 10.
Outras pessoas afirmam que o meta terror teria surgido na metade da década de 1990, quando o gênero estava nas areias do destino e totalmente ridicularizado após dezenas de produções cada vez mais toscas nas franquias Sexta-feira 13 e A Hora do Pesadelo. O público simplesmente não tinha mais paciência com o horror.
Um tal de Kevin Williamson escreveu um roteiro e entregou para um tal de Wes Craven, que achou aquela desconstrução do gênero irresistível e decidiu dirigir um longa-metragem que pode ser considerado como um dos principais responsáveis pelo horror voltar a dar resultados nas bilheterias e ter respeito dos críticos.
Estou falando de Pânico (Scream, 1996), que logo virou uma franquia que se enfraquecia a cada novo lançamento, e deu origem a várias outras séries. Só que o meta terror teria começado antes de 1996…
O clássico The Rocky Horror Picture Show (Jim Sharman, 1975) iniciou um movimento e por isso permanece como um verdadeiro clássico cult com fãs devotos. Até mesmo o clipe musical de “Thriller”, de Michael Jackson, poderia ser considerado um “meta terror”. Dirigido por John Landis, o vídeo possui a metalinguagem que o Pedro menciona no seu vídeo, e que Pânico trabalhou tão bem, mas com a diferença que foi lançado na década de 1980.
A autoreferenciação está longe de ser considerada como uma novidade na sétima arte. Bem longe mesmo!
Quais seriam os melhores filmes de meta terror ou pós-terror?
Se você chegou até aqui é porque tem curiosidade em encontrar produções de TERROR parecidas com Um Lugar Silencioso, Ao Cair da Noite etc. Não adianta te falar que isso não existe porque sua vontade é apenas pegar dicas de filmes. Vou te ajudar a se ajudar então.
Abaixo tenho algumas das minhas dicas pessoais com meus filmes favoritos para recomendar especialmente para você. Confira:
Hereditário
Após a morte da mãe, uma mulher precisa tentar reconstruir a sua vida e de sua família. Só que umas paradas muito loucas começam a acontecer ao seu redor e parece que nada ficará bem.
Hereditário é a definição de ficar com o cu na mão. Se o ato final de A Bruxa te deixou tenso (ainda tenho calafrios pensando naquele bode dos infernos), acredite quando digo que você não tem a menor ideia do que te reserva na meia-hora final do longa-metragem. O clima claustrofóbico nos deixa extremamente desconfortáveis diante uma narrativa familiar com uma pitada de ocultismo.
A Bruxa
Uma família vai morar no meio do mato e quando o recém-nascido desaparece, eles descobrem que a floresta não é nada segura e que tem uma entidade perigosa rondando a região.
O que mais gostei em A Bruxa é que não existe a menor pressa em acelerar a narrativa para buscar impactar o espectador. Tudo acontece lentamente. Aquelas pessoas que se envolverem serão recompensadas com o ato final mais aterrorizante do cinema em anos.
A Corrente do Mal
Uns adolescentes promíscuos boladões ficam transando entre si e uma maldição acaba sendo passada de um para o outro. Para sobreviver, a pessoa amaldiçoada precisa transar com alguém e assim por diante.
O negócio aqui é a sutileza somada com uma trilha sonora maravilhosa. Corrente do Mal é um tapa na fuça com suas metáforas e os riscos fatais que esse comportamento pode acarretar… Mas viver perigosamente faz parte.
Senhor Babadook
A mãe viúva e atormentada pela morte do marido tenta superar o medo crescente que seu único filho anda sentindo. As coisas pioram depois que o moleque acha um livro esquisito e começa a ter certeza que um monstro tá a fim de acabar com ele.
Senhor Babadook é uma porrada que só tive coragem de ver uma vez porque disfarçado de terror está toda uma narrativa pesada sobre depressão. Não é uma obra indicada para qualquer pessoa.
mãe!
“Recomendo mãe! para qualquer pessoa interessada em assistir a um filme capaz de entrar na sua cabeça e te fazer cagar tijolos. Esse é um daqueles casos em que ficamos horas e dias pensando no que assistimos, enquanto a obra vai crescendo mais e mais, criando uma vontade incontrolável de ir ao cinema novamente. Infelizmente, verdade seja dita, não é um trabalho fácil para qualquer pessoa, especialmente quem vai ao cinema dar uns beijos ou mexer no celular.”
Caso queira se aventurar pelos melhores filmes de terror dos últimos anos, também recomendo:
Melhores filmes de terror de 2017
Melhores filmes de terror de 2016
Melhores filmes de terror de 2015
Melhores filmes de terror de 2014
Melhores filmes de terror de 2013
Melhores filmes de terror de 2012
Melhores filmes de terror de 2011
Conclusão: Meta Terror é apenas TERROR, porra!
Existem verdades espalhadas dentro de cada um de nós. A verdade de um, não precisa ser necessariamente a verdade do outro. Somente após pesquisas, estudos e a busca pelo conhecimento é possível formular uma verdade sólida. A verdade do Cinema de Buteco sobre meta terror é bem simples:
Meta terror é o caralho!
É apenas terror muito bem feito e que se afasta da mesmice de produções jump scare que possuem o objetivo de fazer o espectador jogar a pipoca pro ar, derramar refrigerante ou pular no colo da companhia fingindo que se assustou.
Dentro do gênero temos diversas linhas, como os slashers, mas usar a alcunha de “meta terror” ou pós-terror me parece apenas como uma maneira de subestimar o bom e velho terror. É como se filmes incríveis como O Bebê de Rosemary fossem bons demais para serem considerados como terror, e isso é uma verdadeira ofensa para quem ama esse gênero.
O que você pensa dessa história?
Dicas de conteúdo para você tirar suas próprias conclusões
“A Brief History of Meta Horror” – Wicked horror
“O novo cinema de terror no Brasil: Diretores e produtores debatem preconceito, bilheteria e identidade nacional” – AdoroCinema
“How post-horror movies are taking over cinema” – The Guardian
“A Polêmica do Pós-Terror” – Entre Planos