Crítica: Guerra Fria

Guerras e conflitos são sempre bons panos de fundos para histórias de amor, em Guerra Fria não há cenas de violência, mas a opressão está o tempo todo presente, fazendo com que haja mais desencontros do que encontros na trajetória dos protagonistas. Wiktor (Tomasz Kot) é um artista responsável por recrutar os melhores jovens cantores e bailarinos  para uma companhia focada em divulgar a arte folclórica polonesa durante o governo comunista em 1949, lá que ele conhece e se apaixona por uma dessas jovens, a impulsiva e expressiva Zula (Joanna Kulig), e dão início a uma história de amor que passará pela Iugoslávia, Alemanha e França através dos anos seguintes.

Depois de Ida (2015), o diretor polonês Pawel Pawlikowski traz uma obra superior ao anterior, trabalhando com características que já podem ser consideradas como sua marca, como ângulos em forma de retrato e o preto e branco. Guerra Fria é tecnicamente impecável, a recriação de época é perfeita, não tem uma cena que não seja esteticamente bela. Aliás, algumas das cenas mais bonitas envolvem sequências de música e dança, uma surpresa para mim, que esperava um “romance de guerra”, e o filme é quase um musical, algo que nunca tinha visto antes dentro desse contexto. Mas pensando bem não deveria ser surpresa que o diretor comande cenas de dança tão boas, já que ele faz do mise en scène praticamente um balé, como em uma cena logo no início, onde os camponeses descem de uma carroça sujando seus pés na lama, aquilo é um balé milimetricamente orquestrado, assim como todo o resto do filme.

Como perceberam, de fato a beleza visual impressiona, mas dessa vez não é apenas visual, o filme traz personagens interessantes com ótimas atuações do casal protagonista, principalmente de Joanna Kulig (uma revelação). Pawel Pawlikowski fez uma obra que mistura amor, música e conflitos políticos, um filme grandioso mas também bastante pessoal, já que foi dedicado a seus pais, o que torna Guerra Fria ainda mais especial, e pra finalizar, só quero dizer que gosto muito das últimas cenas, uma delas envolve a música italiana ‘24 mila baci’ e a outra é o próprio final.