Black Mirror e suas histórias perturbadoras

NO FINAL DA DÉCADA DE 1950 O AMERICANO ROD SERLING criou a série Além da Imaginação (The Twilight Zone), que utilizava a ficção-científica, suspense, fantasia e terror para conceber histórias assustadoras. Inicialmente, foram 5 temporadas com episódios independentes com 30 a 60 minutos de duração. Em 1985, dois anos após o formato da série ser levado para os cinema com o filme No Limite da Realidade, mais três temporadas foram exibidas.

Além da Imaginação explorava temas como viagem no tempo, fantasmas e mundo paralelo e fazia seu público ficar apreensivo e/ou pensar um bocado antes de dormir.

Já nos anos 1990, foi exibida a série Goosebumps, terror para crianças com personagens que faziam seu público se identificar facilmente.

Agora, no século XXI, o que poderia nos assustar de verdade? Os filmes e séries que assistimos atualmente podem ser bem escritos e mostrar monstros assustadores, mas horas depois de assistirmos não temos mais nenhum pensamento perturbador.

É essa pulga atrás da orelha que a série inglesa Black Mirror deixa no seu público. Histórias dramáticas com atenuantes que não são impossíveis de se tornarem alcançáveis é o ponto de partida de cada episódio. O primeiro mostra a reação da população quando o primeiro-ministro inglês é intimado a ter relações sexuais com uma porca com transmissão ao vivo pela TV. Em troca, a princesa sequestrada será devolvida com vida.

Black Mirror - porca

Alguns dos episódios seguintes (são 2 temporadas com 3 episódios cada e um episódio de Natal)  mostram relações com base na sensação de reality show. Em um deles, é possível para todos acessar suas próprias lembranças e mostrá-las a outras pessoas, e surge a questão: “Isso é mesmo bom?” Reviver momentos deixados para trás pode ser o desejo de muitos, mas o conselho de tomar cuidado com o que se deseja nunca fez tanto sentido. E não para por aí: o agoniante White Christmas (com Jon Hamm, da série Mad Men) mostra uma realidade onde é possível bloquear as pessoas na vida real e tem um desfecho inesperado.

Mas nada me preparou para Be Right Back, estrelado por Hayley Atwell (Capitão América: o Primeiro Vingador ) e Domhnall Gleeson (Questão de Tempo). Eles formam um casal feliz que está de mudança para uma casa na área rural, e quando ele morre a mulher não consegue lidar com a ausência do marido. Ela é apresentada a um aplicativo capaz de simular contato via e-mail entre os dois, de acordo com o que ele sempre expunha na internet. A ideia era manter esse contato para ajudar a moça a superar a dor e se acostumar com a saudade do marido, mas acaba se tornando um vício. Parece que não há limite para as consequências.

Com histórias como essas, explorando a solidão da atualidade, a superexposição e a aprovação de todos, da qual acabamos dependendo, a série explora diferentes cenários e narrativas perturbadoras. Ao final de casa episódio, o espectador pode questionar parte de seus hábitos e temer o futuro tecnológico, já que é difícil prever os limites e as consequências da tecnologia e da nossa vontade de sermos importantes no mundo da internet, de mostrar nossos méritos e sucessos. Afinal, por que deixamos todas as nossas informações ao alcance de todos? Por que grande parte dos perfis no Facebook inclui a escola onde o dono do perfil estudou, lugares que frequentou, link para o perfil do cônjuge e fotos diárias do que cada um faz, o que come, o que assiste, qual esporte pratica, qual academia frequenta? Cada vez mais precisamos de uma salva de palmas diária, mas o que vem com isso é assustador.

Esse é o verdadeiro terror da atualidade.