O CINEMA DE BUTECO ADVERTE: A review de Uma Família Feliz possui spoilers e deverá ser apreciada com moderação
COM A REALIDADE DO STREAMING, a produção audiovisual brasileira conseguiu ganhar acesso aos lares dos espectadores e iniciou um processo de vencer o “preconceito”. Existe uma ideia equivocada que questiona a qualidade do nosso cinema. Serviços de streaming ajudam a mudar a opinião do público e uma produção de suspense como Uma Família Feliz, de José Eduardo Belmonte, é muito bem-vinda.
O roteiro é do escritor Raphael Montes, que logo após concluir o script decidiu transformar a história em um livro homônimo. Famoso pelo sucesso de A Menina que Matou os Pais e a série Bom dia, Verônica, Montes presta um serviço para o cinema nacional criando um autêntico thriller gringo made in Brazil. É o tipo de história que a gente costuma achar aos montes no cinema norte-americano, mas aqui existem poucas opções.
Uma Família Feliz aborda a paranoia, com ares de O Bebê de Rosemary, mas seu forte está mesmo na crítica à cultura do cancelamento. Dentro de uma tradicional família brasileira em que a imagem passada para as outras pessoas é tudo, o espectador dá um grande mergulho na hipocrisia das aparências. Quando o bebê recém-nascido aparece com marcas de agressão e logo depois é a vez das filhas gêmeas surgirem machucadas, logo se cria a ideia de que Eva (Grazi Massafera) é a culpada. Através das redes sociais e grupos de WhatsApp, começa uma grande perseguição acusando a protagonista, que de tão fragilizada nem consegue ter certeza se ela machucou ou não seus filhos.
O longa não aprofunda tanto nos detalhes do livro. Não há tempo para desenvolver tramas paralelas e mesmo os conflitos internos dos seus personagens. A suspeita de Eva, por exemplo, não recebe tanta atenção e as ações da personagem no terceiro ato podem passar despercebidas por boa parte dos espectadores. Os próprios conflitos internos da protagonista também sofrem pela ausência do background materno, que no livro reforça (muito) a suspeita em cima dela mesma.
Se não fosse um produto comercial, Uma Família Feliz poderia ter tomado caminhos mais corajosos para deixar seus espectadores completamente em choque. Mas sabemos bem que o público brasileiro ainda não é maduro o suficiente para ver certas cenas sem correr o risco de promover um boicote. Felizmente, Uma Família Feliz se sustenta sem precisar ser gráfico ou mais violento, e garante um entretenimento de alto nível para os fãs de bons filmes de suspense.