REVIEW o menino e a garça

Review O Menino e a Garça: O filme que tirou Miyazaki da sua aposentadoria

O CINEMA DE BUTECO ADVERTE: A crítica de O Menino e a Garça possui spoilers e deverá ser apreciada com moderação. 

poster o menino e a garçaÉ UMA PENA TER CONHECIDO O CINEMA DE HAYAO MIYAZAKI EM UMA ÉPOCA MENOS DOCE DA VIDA. Só a partir dos anos 2010 tive meu primeiro contato com a sua fantástica obra. Penso em como o impacto delas seria maior, caso tivesse tido a oportunidade de ver durante a infância/adolescência e pudesse revisitar já adulto. Mas sabe como é… se a gente não pode voltar atrás e mudar o passado, podemos sempre ficar atentos para construir um novo futuro (já dizia Chico Xavier… acho). 

O Menino e a Garça (Kimitachi wa dô ikiru ka, Hayao Miyazaki, 2023) marca o retorno do cineasta após dez anos desde o anúncio da sua aposentadoria. Foram sete anos de produção, o que acabou resultando uma das obras mais caras do cinema japonês, e o resultado é exatamente aquilo que se espera de um mestre em contar histórias cheias de fantasia, humor e reflexões. 

A trama apresenta um garotinho chamado Mahito, que acaba de perder a mãe em um incêndio durante a época da Segunda Guerra Mundial. Seu pai decide organizar um casamento rápido com a sua tia, o que causa um sentimento ruim no moleque. Forçado a mudar de vida de forma drástica, Mahito (o meu corretor insiste em chamar o personagem de Mojito) passa a ser perturbado por uma garça atentada. Essa relação transforma a sua vida para sempre. 

O Menino e a Garça é uma tradicional história de amadurecimento (também conhecido como “coming of age” para os entusiastas da língua inglesa ou da globalização da comunicação). Ao longo das suas duas horas de duração, o longa dedica espaço para o luto em todos os seus estágios. Miyazaki leva o seu personagem para uma jornada severa no mundo adulto, onde ele logo descobre o preço do amadurecimento. 

A forte mensagem da obra é uma autêntica reflexão budista sobre o sofrimento. O budismo tenta nos ensinar que a vida (e a morte) são inevitáveis, mas o sofrimento é algo opcional. Nenhum humano está livre da dor das perdas, mas cabe a nós entender que resistir apenas aumenta o nosso sofrimento. Mahito tem a chance de, tal qual as pílulas azuis e vermelhas de Matrix, escolher entre um mundo de fantasias e o mundo real. Após toda a sua jornada, ele finalmente entende que não dá para viver livre da dor. Faz parte, infelizmente. 

Além da sua poesia e metáforas pesadas para a vida, O Menino e a Garça tem em sua trilha sonora um trunfo imenso. Joe Hisaishi, parceiro de longa data de Miyazaki, cria temas sensíveis e emocionantes. Pessoalmente, acredito que uma música tem sempre o poder de transformar nossos sentimentos a respeito de um filme. Aqui, não é diferente. O trabalho de Hisaishi é o grande culpado pela narrativa funcionar. Inexplicavelmente, o compositor ficou fora da disputa pelo Oscar 2024

Dentro do meu parco conhecimento sobre o cinema de Miyazaki, considero O Menino e a Garça um dos seus filmes mais “adultos” e difíceis. É certamente uma daquelas opções de arte que você não irá esquecer depois de assistir e ficará sempre com uma sensação boa. O tipo de coisa que só acontece quando temos o prazer de conferir o trabalho de verdadeiros artistas do cinema.

Estreia nos cinemas em 22 de fevereiro de 2024.