O CINEMA DE BUTECO ADVERTE: A crítica de Garra de Ferro possui spoilers e deverá ser apreciada com moderação.
FAMÍLIA É UM BICHO COMPLICADO. Principalmente quando você cresce com a obrigação de corresponder às expectativas frustradas dos pais, que jogam para os filhos a responsabilidade de realizar sonhos que não são deles. Essas relações familiares tóxicas são muito comuns e às vezes resultam em histórias inacreditáveis, como é o caso do excelente Garra de Ferro (Iron Claw, Sean Durkin, 2023).
Baseado na história real de uma das famílias mais lendárias da luta-livre, o filme conta a história de quatro irmãos muito unidos. Tanto na amizade e quanto nos interesses profissionais, quanto na “maldição” de querer ser sempre o filho favorito de um dinossauro exigente e grosseiro. O longa dedica sua atenção na destruição quase completa da família, que segue como um trator para continuar agradando ao patriarca.
Holt McCallany (Clube da Luta e O Beco do Pesadelo) interpreta Fritz, o pai tirano. Com seu jeito durão e insensível, ele segue pilotando a locomotiva familiar que não se deixa abalar. A sua frieza em relação aos desejos e necessidades dos filhos chega a ser assustadora. O bullying com o caçula é engraçado, mas é aquele tipo de humor culposo. A gente sabe que é errado, mas ri mesmo assim. Fritz faz da sua família o seu próprio negócio e age como um empresário consumido pelo desejo de lucrar.
Para quem tem irmãos, Garra de Ferro é um deleite à parte. Durkin entra na intimidade familiar com tanta naturalidade, que a gente se sente até constrangido acompanhando a punhetinha matinal de um, enquanto outro esmurra a porta querendo usar o banheiro. Ou na disputa velada para ver quem é o favorito do pai (que declara de forma explícita a sua ordem de preferência). Esse carinho do cineasta pelos jovens é fundamental para os espectadores torcerem, ficarem putos com o pai e se preocuparem com o destino de cada um deles.
Em seu terceiro longa-metragem (procure por Martha Marcy May Marlene e O Refúgio), Durkin acerta a mão. Todo o elenco está incrível. A imprensa não exagerou quando afirmou que Garra de Ferro tinha a melhor atuação da carreira do ex-bonito Zac Efron. Nunca duvidei do talento de Efron, mas o seu rosto deformado com a demonização facial cria sérias limitações no seu desempenho. A gente sabe que ele está sofrendo, mas o rosto de boneco de cera não acompanha o que acontece.
Destaque também para a montagem, que não deixa a narrativa ficar arrastada ou cansativa ao longo das mais de 2 horas de história. Aliás, preste atenção na divertida gag quando Kevin vai perder sua virgindade e ter a primeira relação sexual com sua futura esposa. A cena do casal no carro corta para o pai assistindo televisão em casa e escutamos “ele conseguiu! Ele conseguiu”, em uma alusão hilária ao amadurecimento do protagonista.
Garra de Ferro é um drama familiar denso sobre a consequência de uma relação abusiva. Ainda que misteriosa, a verdadeira maldição se revela no sentimento de culpa de Kevin. Seja ele consciente ou não, a morte de todos os seus irmãos poderia ter sido evitada com um cuidado a mais, como a insistência para visitar um médico, proibir sair de casa depois de beber ou aceitar o caminho musical do caçula. Em certo momento, ele se posiciona como o verdadeiro pai da família, mas sem ter a força necessária para romper com o pai. Acompanhar esse relacionamento tóxico é uma jornada que exige muito do emocional do espectador, mas o resultado é um filmaço.
Estreia nos cinemas brasileiros no dia 22 de fevereiro.