O CINEMA DE BUTECO ADVERTE: A review de A Primeira Profecia possui spoilers e deverá ser apreciada com moderação.
CLÁSSICO É CLÁSSICO. Quando o CinePop postou um comentário nas redes sociais elogiando a pré-sequência de A Profecia (The Omen, Richard Donner, 1976), senti uma mistura de emoções. As expectativas eram baixas, pois imaginava apenas mais um caça-níquel desesperado para reaproveitar o que deu certo no passado. Apesar do CinePop exagerar nas suas avaliações, o terror me chamou a atenção e tratei de descobrir se A Primeira Profecia (The First Omen, Arkasha Stevenson, 2024) realmente fazia jus aos comentários recebidos.
A trama acontece durante o período que antecede a introdução da adaptação de Donner. A vida e crenças de uma jovem prestes a fazer seus votos para se tornar uma freira, se transforma totalmente depois dela descobrir que faz parte de uma conspiração para gerar o próprio anticristo. Margareth, vivida por Nigel Tiger Free, é usada pelo roteiro para trabalhar o velho questionamento religioso envolvendo Deus e o Diabo.
A premissa da vez é que para recuperar a fé das pessoas em geral (entenda: recuperar sua força e controle), a Igreja decide trazer o próprio anticristo para causar terror e caos no mundo. A partir do cenário apocalíptico, a Igreja conseguiria se fortalecer novamente e voltaria a ter poder para queimar quem criticasse o Olavo de Carvalho, por exemplo.
O longa tem tudo que os fãs procuram em um filme de terror. Existem sequências capazes de gerar bons sustos, existe toda uma construção para amedrontar o público, assim como um trabalho competente do elenco. O roteiro faz questão até mesmo de incluir uma grande reviravolta inesperada, que pode agradar bastante aqueles que não viram/se importam com a adaptação de Donner.
Engraçado perceber que se não fosse pela conexão com A Profecia, o longa-metragem provavelmente mereceria os elogios. O problema é que sua ligação com o clássico da década de 1970 modifica um elemento importante e ainda abre espaço para uma sequência mostrando o desenvolvimento de um arco que termina em aberto. Ainda que enfrente a injusta comparação, pelo menos A Primeira Profecia não é medíocre como O Exorcista: O Devoto.
Destaque para a participação de Sônia Braga, que causa arrepios em cada uma das suas cenas. Sua personagem é uma freira rígida que logo se revela como parte da conspiração para gerar o anticristo. No meio de vários personagens sem graça, Braga é a grande responsável por elevar a qualidade da obra, que ainda tem Bill Nighy no elenco. Pena que seu personagem receba tão pouca atenção.
O saldo final de A Primeira Profecia é positivo. Seus defeitos estão nos esforços para se conectar com o filme de 1976 (ainda que isso signifique pequenos ajustes) e principalmente no seu encerramento, mostrando as três sobreviventes do incêndio vivendo em uma casa. A sede de continuar lucrando apenas repetindo as mesmas histórias é um pouco cansativa e quando envolve um clássico, bem, a nossa paciência tende a ser menor.