SE EXISTE UM PROBLEMA NA FRANQUIA JOGOS VORAZES É A MANEIRA COMO A OBRA É VISTA PELO PÚBLICO COMUM, que insiste em depreciar o trabalho dos envolvidos apenas por ser a “modinha” da vez. Esse pré-conceito é extremamente burro e injusto, já que acaba afastando parte dos espectadores que desconhecem sobre o que trata a história adaptada dos best-sellers de Suzanne Collins. Ainda que seja sim o filme da vez, com uma legião de fãs fissurados, mas com muito mais coisa na cabeça do que as malucas que iam para as portas do cinema chorarem por Robert Pattinson, Kristen Stewart e Taylor Lautner na Saga Crepúsculo, a franquia Jogos Vorazes demonstra que pode atingir mais do que apenas os seus leais seguidores. Jogos Vorazes: Em Chamas é uma boa prova disso e acerta em tudo que o anterior deixou a desejar.
Antes de mais nada é preciso dar um aviso: NÃO assista Jogos Vorazes: Em Chamas caso não tenha o primeiro filme bem fresco na memória (ir assistir sem ter visto o anterior é sem chance, exceto se você estiver acompanhado e a sua única intenção for dar uns beijos selvagens no fundão da sala. Problema seu, da sua companhia, e de quem ficar perto de vocês. Na verdade, eu sugiro “alugarem” o original e assistirem debaixo do edredom. Ou pelo menos fingirem, sei lá), pois a trama já começa mostrando o que houve com Katniss (Jennifer Lawrence) após a sua vitória na 74ª edição dos Jogos Vorazes. O Presidente Snow (Donald Sutherland) está boladão com a vitória da garota e está com um medo infernal dela dar esperança para os habitantes dos outros distritos buscarem uma vida melhor e iniciarem uma rebelião contra a Capital. O que acontece, como tentativa de evitar isso, é convocar Katniss e Peeta (Josh Hutcherson) para uma nova edição do combate mortal, desta vez trazendo de volta antigos vencedores dos Jogos Vorazes. Ou seja, todos aqueles que ganharam fama, dinheiro e liberdade depois de se sagrarem campeões terão que lutar mais uma vez. Kat e Peeta precisam formar alianças com outros sobreviventes para conseguirem escapar do confronto com vida, mas desta vez isso parece ser ainda mais improvável do que na disputa do ano anterior.
A grande evolução em relação ao primeiro filme foi a substituição na direção. Gary Ross deixou a desejar muito com seu trabalho. Ainda que tenha tido seus acertos, a verdade é que Jogos Vorazes é bem mediano. O carisma de J-Lawrence é a única coisa que sustentou a obra, cujas cenas de ação eram medíocres e a tensão era quase que inexistente. Francis Lawrence (Eu Sou a Lenda) não é nenhum Jedi, mas certamente compreendeu a essência da série melhor do que o seu antecessor e está confirmado no comando das últimas duas partes (sim, dividiram o terceiro livro em dois igualzinho fizeram com Saga Crepúsculo. Nece$$idade de agradar). Fato semelhante aconteceu com David Yates, quando assumiu a franquia Harry Potter a partir de A Ordem de Fênix e fez com que os filmes ficassem respeitáveis em relação aos livros. Poderia lembrar de Bill Condon e seu trabalho nos últimos dois exemplares de Crepúsculo, mas prefiro me abster de mais comentários elogiando o último volume da saga. De qualquer maneira, Francis Lawrence aproveitou o fato de trabalhar com dois roteiristas brilhantes (Michael Arndt e Simon Beaufoy – Pequena Miss Sunshine e Quem Quer Ser um Milionário?, respectivamente) e conseguiu criar cenas de ação convincentes (e que deixam o espectador entender o que está acontecendo) e envolventes, de maneira que conseguimos sentir a tensão que os personagens sentem na luta e também fora da arena, diante toda a opressão do governo.
Os personagens estão muito mais desenvolvidos e irritam menos os espectadores, como o caso de Peeta. Em Jogos Vorazes, ele é um sujeito bonzinho que está o tempo inteiro com a boca aberta, como se fosse babar. Na sequência, Peeta “fechou” a boca e está mais confiante. Ainda é um sujeito bonzinho demais para lidar com as artimanhas do amor, só que “amadureceu” o suficiente para se tornar um bom personagem. Gale (Liam Hemsworth) ganha mais força e destaque, ainda que sua participação não seja lá tão relevante para o roteiro. A sua função é ser bonito, forte e deixar as pernas de Katniss bambas. Já a minha musa inspiradora, Jennifer Lawrence, está ainda melhor do que no original. Amargurada, com raiva do Presidente e das crueldades contra a população dos Distritos, e com o coração (aparentemente) dividido entre dois galãs, Katniss é, novamente, a melhor coisa do filme. Sua personagem cresceu e se tornou uma força rebelde contra a opressão do Governo. O símbolo do Tordo atormenta a cabeça dos líderes, que passam a se ver diante uma inevitável revolução. O elenco é reforçado com a experiência de Philip Seymour Hoffman (O Mestre), na pele do ambíguo Plutarch Heavensbee; a belezinha Jena Malone (Donnie Darko) aparece na pele da enfezada Johanna Mason; e ainda temos o retorno de Lenny Kravitz (bem mais discreto que no original), Elizabeth Banks (ainda irreconhecível com toda aquela maquiagem) e Woody Harrelson (igualmente divertido).
Existem falhas, claro, ou realmente dá para acreditar na limitação intelectual do Presidente Snow? Ou na falta de profundidade do personagem de Hoffman para justificar suas escolhas e ações? Não se trata de uma obra perfeita, mas quem é que está atrás disso quando vai para o cinema assistir a uma adaptação de um livro que fez tanto sucesso entre os jovens? Eles são o público alvo, e eles certamente terão motivos de sobra para voltarem para a casa comemorando e exaltando o que viram (possivelmente com muito exagero, tipo os campeões brasileiros que acreditam que o time deles é o melhor, quando mundo sabe que o melhor time do país é alvi-negro). Nada disso importa ou ofusca a qualidade de Jogos Vorazes: Em Chamas, cujo encerramento deixará os fãs de Star Wars: Episódio V – O Império Contra-Ataca com as calças molhadas de emoção. E mérito também para o humor muito bem dosado ao longo da trama, especialmente nas cenas com participação do divertido Stanley Tucci.
É comum criar resistência com o hype. Tudo que fica famoso demais ou recebe atenção excessiva costuma ser ruim, mas isso nem sempre se aplica. Jogos Vorazes está longe de ser algo genial ou que vá mudar a vida de algum cinéfilo mais calejado, ainda mais em tempos que estamos de saco cheio de tantas continuações e reboots, mas ele significa muito para uma nova geração, assim como aconteceu com Crepúsculo. A diferença é que, ao contrário da trama de Romeu e Julieta com um vampiro purpurinado e um lobisomem depilado, as adaptações das obras de Collins são boas o suficiente para atingirem aqueles que se deixarem levar pelo fenômeno mais recente sem ter o receio de serem julgados pelos “espertinhos” intelectuais que gostam de apontar defeitos o tempo inteiro. Jogos Vorazes: Em Chamas é excelente, e em tempos de blockbusters tão rasos, é certo afirmar que seja um dos poucos destaques da temporada que convidem os jovens espectadores a refletirem sobre política e opressão.

Nota:[quatro]