Em seu segundo filme como diretora (o primeiro foi o mediano Na Terra do Amor e do Ódio), Angelina Jolie parece inteiramente comprometida com o objetivo de seguir rigorosamente cada mandamento da cartilha Spielberg-sexagenário a fim de atrair Oscar buzz: inspirado em uma história real de superação e luta pela sobrevivência que, ambientada na Segunda Guerra Mundial, desafia todos os limites do inacreditável (e só essa sinopse resumida já deve ser capaz de levar uma penca de membros da Academia a amar o longa sem sequer tê-lo visto), Invencível usa todas as armas que tem em mãos para levar o espectador às lágrimas e tirá-lo da sala de exibição com a sensação de ter aprendido uma “lição de vida”.
Adaptado do livro homônimo escrito por Laura Hillenbrand, o roteiro dos irmãos Joel e Ethan Coen – uma grande surpresa, como explicarei mais adiante – ao lado de Richard LaGravenese e William Nicholson narra a trajetória de Louis Zamperini (O’Connell), um corredor e medalhista olímpico que torna-se tenente durante a guerra e, após ter seu avião abatido em combate, é preso no Japão em um campo de trabalho escravo muito parecido com aquele visto em A Ponte do Rio Kwai. Lá, ele não é submetido “apenas” aos abusos físicos e psicológicos que já havíamos visto no filme de David Lean, pois é “escolhido” pelo sádico tenente japonês Watanabe (Ishihara) como sua principal cobaia e bode expiatório.
Já tendo início de maneira óbvia ao regressar (após a boa sequência de abertura que mostra uma batalha aérea extremamente bem concebida através de efeitos digitais) a um momento específico da infância de Zamperini em que o garoto assiste a um padre que prega a salvação de Cristo (como se fosse necessário apresentar um personagem ítalo-americano nos anos 20 ou 30 e explicar sua cultura católica) e ao estabelecer as inseguranças do protagonista em relação a seu próprio talento através de um diálogo expositivo e clichê que o rapaz trava com seu irmão mais velho (Russell) no início de seus treinos (quando ele desabafa: “Eu não posso ser um corredor. Eu não sou como você. Eu não sou nada. Eu não acredito em mim mesmo”, seu irmão intervém: “Eu acredito”), o roteiro de Invencível telegrafa cada ponto de virada, reviravolta e suposta surpresa que trará até o fim da projeção, tornando a trajetória de seu herói decepcionantemente previsível e engessada.
O que é mais frustrante no roteiro, que deve ter a maior concentração de frases feitas tiradas de livros baratos de auto-ajuda entre todas as “grandes” estreias de 2014 (“Um minuto de dor vale por uma eternidade de glória” e “Se eu posso aguentar, eu posso conseguir” são só as mais marteladas), porém, é sua abordagem extremamente míope e maniqueísta acerca do complexo conflito que se propõe a abordar, retratando os japoneses como caricaturas cruéis e impiedosas e os norte-americanos como os grandes defensores da paz e da liberdade (uma ideia que a História recente daquele país tem provado falsa a cada novo governo) – e se até compreendo os irmãos Coen fecharem contrato com Jolie e a Universal para escrever um roteiro por encomenda, nada explica sua submissão a uma visão de mundo tão corrompida e contrária à de seus filmes autorais.
Como não poderia deixar de ser em um filme do subgênero “drama motivacional”, a principal aposta dos roteiristas é na história em si – e por mais impressionante (ainda que não muito original) que ela seja, há elementos que simplesmente não funcionam como Cinema – e eu sugiro que você não continue a leitura deste parágrafo caso ainda não tenha assistido ao longa: ok, pode ser verdade que Zamperini e seus amigos Phil (Gleeson) e Mac (Wittrock) capturaram um enorme tubarão “no braço” para se alimentar durante seu longo período perdidos em alto mar, mas dentro do contexto da narrativa a cena é absurda demais para ser levada a sério. Da mesma forma, por mais que eu acredite que o rapaz recusou o convite do alto escalão do exército japonês para deixar o campo de trabalho e viver uma vida confortável em troca de declarações favoráveis à maneira como os soldados americanos eram tratados no país, tal decisão parece apenas querer aumentar o heroísmo do protagonista, que a essa altura já abandonou qualquer traço de pessoa de carne e osso e se transformou em um ícone, um herói, um conceito.
Justiça seja feita, Jolie se certificou de compor uma equipe de primeira linha para levar Invencível às telas – e a fotografia do mestre Roger Deakins, se não mostra-se brilhante como em filmes como O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, Onde os Fracos Não Tem Vez, Bravura Indômita e Skyfall, é eficiente ao usar a luz “solar” e mergulhar cenas específicas em uma bela contraluz para criar a atmosfera épica que a diretora pretende. Por outro lado, a trilha sonora do também genial Alexandre Desplat acaba soando intrusiva demais ao tentar direcionar a emoção do espectador a cada nova cena, funcionando como mais um recurso do longa na tentativa de nos sensibilizar a qualquer custo.
Certificando-se de que o público realmente compreendeu a grandeza dos feitos de seu protagonista ao incluir fotografias e gravações do verdadeiro Zamperini e letreiros que nos informam acerca dos rumos tomados por seus personagens principais em seus últimos minutos, Invencível conta uma história obviamente admirável. As lágrimas que boa parte dos espectadores derramarão ao longo de seus 137 minutos de projeção, porém, resultam mais do maniqueísmo de seus roteiristas e diretora, do excesso de dramatização de seus momentos mais impactantes e dos acordes manipuladores de sua trilha musical que de sua construção narrativa – o que, para um amante do Cinema, é sempre uma constatação decepcionante.