Quando Noé foi lançado, em abril de 2014, vários evangélicos foram às mídias digitais demonstrar sua revolta diante das liberdades tomadas por Darren Aronofsky em relação ao pequeno texto original contido no livro de Gênesis, ignorando a fidelidade mantida pelo cineasta em relação a seus temas e mesmo à sua trama para se apegar a picuinhas como a colaboração dos “guardiões” (seres que são, sim, mencionados na Bíblia) na construção da arca e as tentativas dos humanos não pertencentes à família escolhida pelo Criador de entrar clandestinamente na embarcação na última hora em uma tentativa desesperada de se salvar do dilúvio – uma atitude mais do que compreensível em uma situação-limite como aquela e que não chega a contradizer o cânone apenas por não ser citada nas Escrituras. Pois creio que os mesmos crentes sairão de suas sessões deste Êxodo: Deuses e Reis extremamente satisfeitos com a fidelidade absoluta com que Ridley Scott aborda a história de Moisés, falando muito, assim, sobre sua própria visão de mundo ao sequer notar (e muito menos se irritar com) o fato de que, assim como o Criador de Noé, o “Eu Sou” visto aqui é um ser xenofóbico, vingativo e sanguinolento que usa sua onipotência para seus próprios propósitos.
O roteiro escrito a oito mãos por Steven Zaillian (O Gângster), Jeffrey Cane (O Jardineiro Fiel), Adam Cooper e Bill Collage, aliás, consegue a façanha de manter-se fiel ao livro de Êxodo e, ao mesmo tempo, colocar a própria existência de Deus sob uma interessante névoa de dúvida – o que, independente de suas convicções religiosas, mostra-se a abordagem mais intrigante do ponto de vista narrativo: já no primeiro encontro que Moisés (Bale) tem com a criança que se intitula apenas “Eu Sou”, o herói acabou de sofrer um pequeno acidente que pode haver começado a causar-lhe alucinações. Dessa forma, quando o sujeito começa a tentar organizar uma rebelião dos hebreus escravos contra o poder da classe dominante egípcia, esta pode resultar tanto de uma grande iluminação recebida por um líder messiânico (teoria endossada pelo sábio judeu vivido por Ben Kingsley) quanto de um sentimento de mágoa e vingança que sua própria mente se encarregou de personificar em seu pequeno e rancoroso alterego.
Pensando bem, os cristãos mais xiitas terão sim o que reclamar da teologia do longa.
Mas vamos a sua história: criado como filho por Tuya (Weaver), a irmã do Faraó Seti (Turturro), Moisés torna-se o principal conselheiro de seu “primo” Ramsés (Edgerton) quando este assume o trono após a morte de seu pai. Mas ao visitar um campo de trabalho escravo em Pithon para investigar um possível caso de corrupção envolvendo um vice-rei, o sujeito passa a ser “acusado” de ser, na verdade, um hebreu – uma desconfiança que o leva a ser espulso do palácio e viver os próximos anos como eremita até ser acolhido pelos membros da pequena aldeia da bela Zipporah (Valverde), que logo se torna sua esposa e lhe dá seu primeiro filho. Transformado pelo infortúnio em um humilde pastor de cabras, ele só resolve agir quando passa a acreditar que Deus o quer como o líder da fuga de seu povo rumo à reconquista de Canaã, sua Terra Prometida – e que, como sabemos, envolverá o envio das doze pragas, o início da Páscoa judaica com o genocídio dos primogênitos gentios, os quarenta anos no deserto e a travessia miraculosa do Mar Vermelho.
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Estabelecendo-se como a escolha perfeita para uma eventual sessão pós-Noé também por sua reinterpretação dos heróis bíblicos como homens cheios de medo e dúvidas cuja fé é proporcional ao sentimento de profunda angústia trazido pelo peso da responsabilidade que acreditam ter recebido de seu Deus, o Moisés vivido por Christian Bale com a intensidade com a qual já estamos acostumados é um sujeito tortuosamente dividido entre sentimentos humanos como orgulho, vaidade, ressentimento e instinto de sobrevivência e uma inflexível convicção de fazer parte de um plano maior, mesmo que essa certeza constantemente o coloque em becos sem saída em que seu povo cobra-lhe respostas que ele não tem – e, honestamente, eu não consigo pensar em epitáfio mais louvável para um líder espiritual. Enquanto isso, Ramsés é encarnado pelo igualmente excepcional Joel Edgerton como um metrossexual do século XII a.c. cujos racismo e narcisismo resultam do contexto histórico em que está inserido e não o impedem de manter uma contida admiração (misturada a uma pontada de inveja, é claro) por seu “primo” deserdado.
Do micro ao macro, Êxodo é um épico capaz de fazer inveja a qualquer grande clássico dirigido por D.W. Grifith, Cecil B. DeMille ou David Lean: desde o primeiro plano da projeção, em que belíssimas imagens aéreas dos escravos hebreus construindo as pirâmides e esfinges que se tornariam a maior herança arquitetônica de todo o mundo antigo invadem a tela, o diretor Ridley Scott e o diretor de fotografia Dariusz Wolski criam um longa grandioso que, beneficiado pelos efeitos computadorizados que lhes permitem criar master shots e travellings aéreos praticamente impossíveis na época do Cinema clássico, insere o espectador em um universo fantástico sem se esquecer do fator humano que não nos permite abandonar a causa de seu protagonista – e a cena em que Moisés e Ramsés se encaram pela última vez sobre o chão seco prestes a ser inundado pelas gigantescas ondas que crescem por todos os lados é o exemplo perfeito de efeitos de última geração e orçamento multimilionário empregados no clímax de um drama eficiente vivido por personagens interessantes.
Prejudicado apenas pela confusão cada vez mais gritante causada por Scott durante as (poucas) cenas de ação, em que a câmera chacoalhada não respeita as regras do eixo e cria uma confusão visual ainda maior graças à montagem excessivamente picotada de Billy Rich, Êxodo: Deuses e Reis é o melhor filme do cineasta em anos, mantendo-se fiel às convenções de um dos gêneros mais clássicos do Cinema norte-americano sem deixar de expressar a visão de mundo do homem contemporâneo através de seu protagonista, que em determinado momento chega a questionar qual seria o problema de ensinar seu filho a “confiar em si mesmo”.
Lançado na data que convencionou-se comemorar o aniversário do líder tolerante, amoroso, assistencialista e promotor da paz que fundou o Cristianismo, o longa presta-lhe uma homenagem indireta ao denunciar, por contraste, a ditadura teocrática que pairava sobre um mundo ainda desconhecedor do significado da palavra misericórdia.