38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #41
Contando uma história protagonizada por surdos-mudos, o ucraniano A Gangue tem uma proposta inusitada e ambiciosa: durante suas mais de duas horas de projeção, seus personagens se comunicam apenas em linguagem de sinais sem que haja sequer legendas para que possamos compreender em detalhes o que está sendo dito – e desde sua cena inicial, em que vemos o adolescente Sergey (Fesenko) chegar a seu primeiro dia de aula numa instituição especializada, fica bem claro que o propósito do roteirista e diretor Miroslav Slaboshpitsky não é facilitar nossa imersão em seu universo diegético, mas, ao contrário disso, causar-nos uma sensação de estranhamento parecida com aquela que pessoas incapazes de ouvir devem sentir diariamente ao tentarem fazer parte de nosso mundo excessivamente verbalizado.
Mas o desconforto pela incompreensão dos diálogos logo desaparece, sendo gradativamente substituído pelo choque diante da crueldade do ambiente ao qual Sergey acaba de chegar: liderado por um adolescente agressivo do qual todos tem medo (Dsiadevich), um grupo de rapazes do internato sai toda noite para praticar crimes pelas ruas de Kiev. Com uma hierarquia bem definida e um gosto sádico pela violência, eles inicialmente introduzem Sergey em pequenos furtos, logo transformando-o em cafetão das colegas Anna (Novikova) e Svetka (Babiy). Mas quando um de seus professores (sim) começa a preparar um esquema para enviar as duas meninas para a Itália, o protagonista comete o “erro” de se apaixonar por Anna, se rebelando contra a “gangue” com igual brutalidade.
Filmando basicamente através de master shots estáticos ou pouco movimentados que, jamais permitindo que nos aproximemos dos rostos dos personagens, parece advertir-nos acerca da inutilidade de desenvolvermos qualquer tipo de vínculo com aquelas vidas perdidas, e em externas que se resumem a corredores, paredes surradas e “grafitadas”, terrenos baldios e becos sem saída (mérito também do desenhista de produção Vlad Odudenko), Slaboshpitsky e o diretor de fotografia Valentyn Vasyanovych nos obrigam a confrontar a natureza brutal das ações de seus personagens ao acostumar-nos desde o início da projeção aos longos planos que, em duas cenas particularmente chocantes em seu realismo extremo (a primeira delas chegou a me causar uma breve tontura), não nos permitem um segundo sequer de respiro.
Apropriando-se com inteligência da principal regra de sua diegese (nenhum diálogo, só sinais) não apenas nos pequenos detalhes, como a “campainha” luminosa que nos pega de surpresa ao fazer os estudantes começarem a guardar suas coisas apressadamente e abandonar a sala de aula, mas também em momentos cruciais da narrativa, como na sequência-clímax do projeto, em que nosso primeiro impulso é gritar: “Como é que ninguém ouviu o barulho disso?”, Slaboshpitsky também faz, de forma indireta, um filme sobre a incapacidade humana de se atentar aos problemas alheios que invariavelmente ocorrem a dois passos de cada um de nós e sobre a crise econômica europeia, que, inspiradora de uma penca de filmes que têm chegado a nós através da Mostra, aqui cria uma geração perdida e sem esperança cuja entrega ao mundo do crime simboliza a falência de um Estado de mãos atadas.
Fazendo dupla – e eu sugiro que você só termine este parágrafo caso já tenha assistido ao filme – com o igualmente maravilhoso 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias pela maneira crua e apavorante com que retrata um aborto clandestino, A Gangue funciona também como uma tese de defesa à legalização do procedimento, que, feito sem a menor higiene ou assepsia em países em que ainda é criminalizado, põe anualmente em risco a vida de centenas de milhares de mulheres ao redor do planeta – aliás, aqueles que afirmam que o aborto “já é legalizado” porque já existe uma infinidade de mulheres que o realiza devem urgentemente assistir a este filme para compreender que a discussão não é sobre permitir ou não o procedimento, mas sobre permitir ou não que ele continue sendo um risco imenso para a vida de suas contratantes.
Com um desfecho perfeito por concluir com violência um ciclo que se iniciou com violência, A Gangue não é para poucos: você precisa ter sangue frio para encarar a realidade que o cineasta ucraniano Miroslav Slaboshpitsky quer lhe apresentar.
A Gangue (Plemya, Ucrânia/Holanda, 2014). Escrito e dirigido por Miroslav Slaboshpitsky. Com Grigoriy Fesenko, Yana Novikova, Rosa Babiy, Alexander Dsiadevich, Yaroslav Biletskiy, Ivan Tishko, Alexander Osadchiy e Alexander Sidelnikov.