Crítica: Criaturas do Senhor (2022)

Nossos sentimentos são responsáveis pelas pessoas que somos, o que pode ser tido como algo bom ou ruim. A maternidade, na maioria das vezes, acarreta um sentimento único. É por isso que é comum, em situações de muita tensão, uma mulher perguntar à outra se ela é mãe. Porque somente as mães conseguem compreender alguns sentimentos. Em Criaturas do Senhor (God’s Creatures), acompanhamos o conflito enfrentado por uma mãe e que, por mais que o nosso senso crítico possa falar muito alto, somente quem passa pela situação é quem sabe como suas emoções se revelam em situações tão difíceis de se encarar.

Em um momento não datado (provavelmente entre os anos 1990 e 2000), na Irlanda, Aileen (Emily Watson, da série Chernobyl) reencontra o filho depois de cinco anos. Brian (Paul Mescal, de Aftersun) ficou todo esse período na Austrália, sem contato com ninguém da família ou de sua terra natal. Quando ele volta para a Irlanda, Aileen, apesar do esforço, não consegue esconder muito bem a mágoa por todo aquele período sem contato. Enquanto conexões são retomadas, velhos sentimentos, antes adormecidos, acordam e parecem retomar seus caminhos a partir da ruptura do passado e algumas relações voltam a ser discutidas.

O filme não esclarece as circunstâncias que levaram Brian a tomar a decisão de mudar de país. A comunidade onde cresceu é restrita e tem aquele clima de vila onde todo mundo se conhece desde sempre, somado à ambientação úmida da região, a sensação que se cria é de introspecção, monotonia e desesperança.

É neste cenário que Aileen trabalha como responsável pelo setor composto por mulheres que limpam os peixes pescados na região, em uma empresa que distribui o produto. Na função, Aileen consegue observar as funcionárias sob sua supervisão e as necessidades e particularidades de cada uma.

Pouco depois do retorno de Brian, Aileen é acordada, uma certa noite, pela polícia. Ela precisa dar um depoimento porque o filho é suspeito do estupro de Sarah (Aisling Franciosi, da série The Fall), uma das funcionárias supervisionadas por Aileen. A mãe, a princípio, não acredita na acusação e se mostra disposta a tudo para proteger o filho, mas ao observar melhor as ações de Brian e enxergar o comportamento de pessoas próximas como algo a que pudesse lhe indicar o que aconteceu naquela noite, ela passa a se permitir ter dúvidas sobre o caráter do jovem.

O filme de Saela Davis e Anna Rose Holmer aposta alto no clima introspectivo e flerta com o sombrio, mas não entrega um resultado capaz de sustentar a narrativa. No fim das contas, ele se perde entre o suspense e o drama e não assume nenhuma das alternativas com afinco.

Emily Watson não surpreende ao entregar uma protagonista em conflito com o que acredita ser o correto, mas não há espaço para Paul Mescal e Aisling Franciosi desenvolverem a complexidade de seus personagens.

Criaturas do Senhor chega aos cinemas nesta quinta-feira, 13 de abril, pela California Filmes, em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Porto Alegre, Recife e Vitória.