A Pequena Sereia, live-action (2023)

Durante a última década e principalmente, após a excelente recepção de “Malévola” (de 2014, com Angelina Jolie), a Disney iniciou uma grande onda de produção de live-actions de seus grandes clássicos. Passando por “Cinderela”, “O Rei Leão”, “Mulan”, “A Bela e a Fera” e com mais uma leva já anunciada, muitos se perguntam qual a real necessidade de recontar essas histórias.

Este não é o momento de aprofundar essa discussão, que sem dúvida mereceria um texto inteiro só discutindo os prós e os contras dos live-actions. Mas a recepção sobre a maioria dessas adaptações, de muitos que cresceram assistindo e amando essas histórias, foi a seguinte: pelo menos um pouco desnecessárias. E é por isso que quando as excessões vêm, elas são maravilhosas.

Temos o injustiçadíssimo Cinderela (2015) que valeu por aprofundar personagens antes muito rasos, Cruella (2021) e Mogli (2016). E o incrível Aladdin (2019), que abraçou, respeitou, atualizou e até melhorou a história, conseguindo criar novas memórias afetivas nos telespectadores, o seu maior trunfo.

E por que começar essa crítica dizendo tudo isso? Porque A Pequena Sereia é um filme que finalmente conseguiu fazer tudo o que Aladdin fez em 2019.

E se essa discussão ainda estava em pauta para alguém, não restará dúvida após assistir ao filme, que Halle Bailey foi uma excelente escolha para Ariel. A atriz e cantora entrega tudo cantando e atuando e imprimiu grande carisma em uma das personagens mais queridas da Disney. Sua composição tem tudo que a clássica Ariel já trazia e ainda mais profundidade, graças ao maior tempo de tela e à sua atuação.

Outra surpresa muito bem vinda foi a grande química com o Príncipe Eric, interpretado por Jonah Hauer-King. Nesse relacionamento essa adaptação pode trazer grande aprofundamento, além de mais camadas para o interesse romântico de Ariel. Eric não era um dos príncipes menos desenvolvidos da Disney, tinha até um pouco de personalidade no filme de 1989 (frisando bastante o “um pouco”). Mas aqui ele finalmente é bem desenvolvido, ganha uma história própria, um passado, mais personalidade e interesses. Isso contribui, inclusive, para fazer sentido o interesse que a Ariel desenvolve por ele.

O Rei Tritão (Javier Bardem) e a Úrsula (Melissa McCarthy) são um grande “copia e cola” do filme original, sem trazer grandes novidades. Melissa está bem interpretando a vilã, mas sem maiores desenvolvimentos ou características. Javier tenta trazer um pouco mais de seriedade e profundidade ao rei, mas não tem muito espaço para tal. Já os três queridos amigos de Ariel, Sebastião, Linguado e Sabidão foram criados em CGI com uma mistura ideal de realismo e fantasia e, aqui, ganham muito mais espaço, protagonizando algumas das cenas mais engraçadas do filme.

Quanto as cenas no fundo do mar, em poucos momentos, o CGI incomoda. Mas, no geral, o equilíbrio entre o realismo do live-action e a fantasia da proposta é bem dosado. Muitos seres marinhos enriquecem as cenas com cores e formas. Por sua vez, a pequena aparição de sereias e tritões, além da Ariel e do Rei Tritão, decepciona bastante.

Essa nova versão traz quase 40 minutos a mais de duração, o que é acrescentado no desenvolvimento de personagens e, sim, em novas músicas! Compostas por Alan Menken e Lin-Manuel Miranda, temos excelentes adições musicais. Já os números musicais que já existiam, seguem bastante o padrão do filme de 89, com qualidade parecida, envolvendo algumas melhorias e algumas pioras, que irão variar de acordo com o gosto do expectador.

Por fim, uma excelente adição foi a parte cultural da ilha da qual o Eric é o príncipe. Aqui ela ganha personalidade própria e encantadora, com uma cultura super rica, que nos gera curiosidade para explorá-la junto com a Ariel. Junto a isso, e como uma extensão dessa personalidade, tem-se a adição da personagem da Rainha, que traz mais identidade ao local e ao povo.

A Pequena Sereia foi capaz de respeitar a história de sua obra original, enquanto a aprofunda e cria espaço para que o público crie novas memórias afetivas ao assistirem a produção. É um filme sobre a Ariel, o Eric, seu relacionamento e sobre o desejo humano profundo de ser ouvido e visto. Mais do que isso, é um filme que conseguiu se atualizar sem desrespeitar a história original e trazer novas nuances culturais encantadoras e representativas pra um universo tão querido.