TUDO ESTÁ A BEIRA DO DESAPARECIMENTO EM OPERAÇÃO SKYFALL, novo filme da série James Bond, um simbólico quinquiagésimo aparecimento na forma de um Daniel Craig cada vez mais preocupado em reconhecer-se em relação ao serviço secreto britânico desta vez dirigido por um diretor de grife: Sam Mendes. Quando estreou no cobiçado papel, Craig assumiu um quase reboot da série (a cena em que ele cumpre os atributos necessários para se tornar um double 0 abre Cassino Royale) , em meio a um cenário onde o charme e a parafernália tecnológica já não faziam mais sentido. Precisávamos de visceralidade, impetuosidade e impulsividade deste novo Bond. O charme foi substituído por um elemento mais evidente de masculinidade (neste último filme Bond toma um shot de uma bebida qualquer com um escorpião no pulso). A caminhada rumo a um espião mais humano estava prestes a se completar. Se ele não precisasse acertar contas com seu passado.
Operação Skyfall traz questões relativas à própria condição de existência de Bond, numa era dominada por computadores e hackers capazes de causar mais estrago que qualquer tiro ou pirueta feita por um agente secreto. Afirmar-se frente a esta nova realidade parece ser a tarefa dos roteiristas (entre eles o talentoso John Logan), já que a contraposição entre velho e novo aparece a todo o momento e sob diversos pretextos ao longo da trama. Apenas o valor do comprometimento com a nação e com o MI6 parece subsistir através do tempo e além da morte, mote deste filme que traz um 007 que ressuscita e uma M (Judy Dench, como sempre ideal no papel) em vias de perder seu cargo de liderança devido às falhas com mecanismos com os quais não sabe lidar, mas que ameaçam expor agentes infiltrados em todo o globo, colocando-os em risco.
Esta liderança, pragmática mas ao mesmo tempo sentimental (a ponto de deixar um de seus agentes voltar ao serviço sem estar fisicamente apto para tal, dotado apenas de sua vontade e experiência) é também capaz de criar monstros, sobreviventes desta lógica que muitas vezes sacrifica indivíduos em troca de um “bem maior”. Um deles é Silva, interpretado com deliciosas nuances por um divertido Javier Bardem. À vontade num personagem que esquece o que é moral, e que age apenas segundo princípios particulares, abomináveis porém justificáveis, como todo bom vilão de 007 deve ser, Bardem representa um duplo de Craig, numa história, como já disse, de contrapontos: o amor à pátria e comprometimento com qualquer grande corporação parecem ter chegado à obsolescência, perdem o sentido, como diz Silva. Após experimentar o desaparecimento e a morte, Bond retorna ao ver o prédio que simboliza a corporação para a qual trabalha ser alvo de um atentado. Silva luta contra estes símbolos que o transformaram num monstro já que acreditava numa causa que quase o matou. E Bond é seu contrário.
A abertura ao som de Adele é perfeita, retoma o charme e a inventividade perdidos no irregular Quantum of Solace (a música de Alicia Keys e Jack White nem se comparam às pérolas antes feitas por Chris Cornell e Madonna), as cenas de ação são espetaculares e nada exageradas, embora seja um filme menos explosivo que o normal, o que na verdade é um acerto, já que o foco não é este. A tensão está mais na ação dos sujeitos que nas explosões pirotécnicas.
Operação Skyfall é o símbolo desta ressureição da qual 007 alega ser especialista. Em sua resolução Bond vê seu passado literalmente destruído enquanto alguns elementos clássicos voltam à história. No processo o agente se reinventa, quando reinventar-se neste caso, significa renúnciar ao novo ou ao excessivamente inumano. Bond é um agente sem passado ou sem futuro, mas que faz do presente a base para suas ações e decisões impulsivas e por isto mesmo certeiras. Que venha o próximo!
Título original: Skyfall
Direção: Sam Mendes
Produção: Barbara Broccoli, Michael G. Wilson
Roteiro: John Logan, Patrick Marber, Neal Purvis, Robert Wade
Elenco: Daniel Craig, Javier Bardem, Judi Dench, Naomie Harris,Berenice Marlohe, Ralph Fiennes, Albert Finney, Ben Whishaw,Helen McCrory, Rory Kinnear, Michael G. Wilson
Lançamento: 2012
Nota:[quatroemeia]
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