Quando X-2 estreou nos cinemas, em 2003, podia me definir como a encarnação da inocência num corpo sedento pelo pecado e tão talentoso quanto os bêbados que se apresentam no karaoke do bar mais copo sujo do centro da cidade.
No entanto, isso não significa que minha incompetência amorosa ofuscasse a sorte de falar a coisa certa para a pessoa certa na hora certa.
Havia conhecido essa garota semanas antes do lançamento do filme, mas aquele seria o nosso primeiro encontro como “quase” namoradinhos. Ver uma adaptação de quadrinhos nos cinemas ainda era algo pouco comum, então todo mundo queria dar o seu jeito de conferir a estreia. Isso significou ter a companhia de primos, irmãos e amigos. Zero romantismo. Mas o que eu poderia esperar de uma tarde de sábado num cinema para ver X-Men?
Decidimos ir até o BH Shopping, que era a única sala que prestava em Belo Horizonte desde que os cinemas de rua ficaram extintos anos antes. Antes da sessão começar, para aproveitar o tempo e tentar quebrar aquele clima tenso com a garota que eu estava “apaixonado”, nada mais maduro que brincar de Super Market no Carrefour, né? Saca aquele programa de televisão velho pra danar em que o pessoal tinha que encher os carrinhos de compras com determinados produtos? Essa era uma das brincadeiras que dava para fazer no shopping na época – fora desligar todas as escadas rolantes do shopping ou fazer luta de peixes no Carrefour (a gente ia na peixaria, cada um pegava um daqueles peixes gigantes e usava como espada para bater um no outro) – mas eu precisava de algo especial para “impressionar” a futura namorada.
Algo radical. Inesperado. E que eu nunca tivesse feito antes. Algo como experimentar um baby doll rosa e desafiar as pessoas a me acompanharem. Quanto mais idiota a ideia, mais certo que eu faria sozinho. Era assim antigamente, continua sendo hoje em dia.
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Apenas meu amigo de escola Diego, que estava com a namorada dele na época, topou a brincadeira. Entramos cada um em um dos provadores do Carrefour e quando saímos usando nossos respectivos baby dolls foi uma daquelas cenas hilárias inesquecíveis. Minha barriga começou a doer de tão engraçado. Os amigos ficaram com medo de algum segurança chegar e acabar com a bagunça, e se afastaram um pouco. Talvez tenha sido constrangimento mesmo. Vai saber. De fato, um segurança veio tirar satisfação com a gente, mas barraqueiro malandro não perde a piada. Ele mal começou a reclamar e eu já soltei um: “não tenho a menor ideia do que você está dizendo. Você está rindo de mim? Eu vou comprar isso aqui porque a minha mãe me deu dinheiro e ela me ama do jeito que sou. Quem é você para tirar onda?”. O cara ficou sem reação e pediu para a gente não fazer bagunça. Vesti a minha roupa e fomos para o cinema.
Foi a primeira vez que saí para ver filme com uma turminha e também a primeira vez que troquei saliva com alguém no escurinho do cinema. E juro que prestei atenção na história.
Na saída, nós ainda aproveitamos para (literalmente) jogar o meu irmão dentro de uma caçamba de lixo que ficava nos corredores da saída do cinema. A minha futura namorada de cabelos vermelhos (…) não gostou muito da brincadeira. Tudo que os olhos dela brilharam quando apareci apenas de baby doll rosa apertado desapareceu ao mesmo tempo em que meu irmão afundava no meio das caixas de papelão e restos de pacotes de pipoca e copos de refrigerante.
Mas ainda assim, mesmo me achando um adolescente maluco e idiota, ela topou aceitar as probabilidades positivas de ser a minha namorada durante um tempinho. E é justamente dessas coisas que me lembro quando penso em X-Men 2. Ou qualquer filme da franquia. Exceto X-Men: Primeira Classe. Isso me faz lembrar outra história…
https://www.youtube.com/watch?v=QotW3n9P3N4
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Edições antigas
#1- Batman – O Retorno, por Tullio Dias
#2- Batman Eternamente, por Lucas Paio
#3- A Época da Inocência, por Juliana Uemoto
#4- Menina de Ouro, por Juliana Uemoto
#5- 9 1/2 Semanas de Amor, por Juliana Uemoto
#6- Heliezer Soares e seus filmes, por Heliezer Soares