Guia de consumo: O Cinema de Cameron Crowe

Em cartaz atualmente com o romance Sob o Mesmo Céu, Cameron Crowe é um daqueles cineastas especialistas em contar belas histórias – ainda que atualmente tenha feito poucos filmes realmente bons!

Cameron Crowe

POUCO ANTES DE INICIAR AS FILMAGENS DE JERRY MAGUIRE, o cineasta Cameron Crowe tentou convencer Billy Wilder a fazer uma participação especial no longa. Apesar da negativa do seu grande ídolo, Crowe acabou conseguindo material para escrever um livro sobre um dos maiores nomes na arte de contar uma boa história ao mesmo tempo em que trabalha de maneira genial com a linguagem cinematográfica.

Com uma referência dessas, era de se esperar que Crowe seguisse os passos do diretor de Quanto Mais Quente Melhor e Se Meu Apartamento Falasse. Durante o tempo em que foi casado com a roqueira Nancy Wilson, tudo parecia indicar que se tratava mesmo de um cineasta talentoso e bastante influenciado pela genialidade de Wilder. No entanto, após o excelente trabalho em Quase Famosos (que é praticamente uma espécie de autobiografia sobre a época em que trabalhou na Rolling Stone e acompanhou o Led Zeppelin), a crítica começou a encontrar motivos para reclamar de Crowe. Vanilla Sky foi bem, mas não tanto quanto seu filme anterior, e Tudo Acontece em Elizabethtown foi destruído por tudo e todos. E a culpa não era apenas de Orlando Bloom.

Independente de ter perdido o rumo após o rompimento com seu grande amor (e aqui estamos buscando uma explicação digna de revistas de fofoca para a perda de qualidade de Crowe como diretor), Crowe ainda consegue ser referência quando se trata de personagens doces e cativantes, além de ficar pau a pau com Quentin Tarantino quando se pensa em trilhas sonoras.

Para saber um pouco mais da trajetória de Crowe, o Cinema de Buteco preparou um especial comentando todos os filmes de sua carreira até então! Apreciem sem moderação!

Picardias Estudantis

picardias estudantis

Após o fim do trabalho na Rolling Stone, e com apenas 22 anos de idade, Crowe escreveu um livro chamado Fast Times at Ridgemont High: A True Story. A trama era digna dos trabalhos iniciais de Richard Linklater, como Jovens, Loucos e Rebeldes, e apresentava a vida e descobertas de um grupo de adolescentes. Um ano após o lançamento do livro, o filme foi lançado nos cinemas e tinha ninguém menos que Sean Penn em um dos papéis principais. Nicolas Cage, Jennifer Jason Leigh, Eric Stolz e outros atores que ficaram relativamente conhecidos com o passar dos anos também fazem parte do elenco. Detalhe é que todos eram completamente desconhecidos até aquele momento. (Tullio Dias)


Digam o que Quiserem

Digam o que quiserem destaque

Cameron Crowe tem um estilo marcante e inconfundível. Seus filmes sempre contém uma história leve e fácil de acompanhar, além de levarem o jeito “croweniano” peculiar de tratar os relacionamentos. Mas o que realmente é sua assinatura – na minha opinião, claro – são as excelentes trilhas-sonoras.

Digam o que Quiserem é o primeiro filme do diretor estadunidense. Lançado em 1989, conta uma daquelas histórias que a Sessão da Tarde ama. John Cusack, novinho e bonitinho, é Lloyd, um garoto que acaba de se formar e não tem a mínima idéia do que fazer com sua vida. Diane (Ione Skye) se graduou com méritos e tem seu futuro pronto numa faculdade inglesa. No verão, prestes a se mudar e começar uma nova vida, ela resolve deixar que Lloyd a leve para sair. E aí, vocês já sabem. O filme não tem nada demais. Mas são personagens com dúvidas e sentimentos tão reais, que acaba chamando a atenção. Lloyd é um daqueles caras raros, sensível, rodeado de amigas que morrerão de inveja da sortuda que o conquistar. Diane é uma filha exemplar, focada em seus estudos e sem tempo de namorar. Os dois formam um casal simpático, desses que você tem certeza do casamento. (Flavia Andrade)


Vida de Solteiro

singles

O título do filme no Brasil ficou como Vida de Solteiro, perdendo a duplicidade de sentido do título original (Singles) que referia-se também às músicas que se tornam a trilha sonora de nossas vidas.

Cameron Crowe retrata o início dos anos 1990 em Seattle, berço do Grunge de Pearl Jam, Nirvana, Soundgarden, Stone Temple Pilot, Alice in Chains e Temple of the Dog. E em formato episódico narra situações cotidianas de um grupo de jovens que moram numa mesma vizinhança e freqüentam os mesmos lugares. Se isso te soa familiar não estranhe. É fácil perceber a influência aqui dos filmes que Woody Allen protagonizou em Nova York, e conseqüentemente, Singles junto com Seinfeld acabou servindo de inspiração para a produção do seriado Friends.

O formato do filme pode não agradar todos os públicos, mas a trilha sonora é saudosista e impecável. (Leonardo Lopes Carnelos)


Jerry Maguire – A Grande Virada

Jerry Maguire destaque
Além de dar grande destaque ao elenco, inclusive com um Oscar para Cuba Gooding Jr., Jerry Maguire revelou o diretor e roteirista Cameron Crowe ao grande público, que ainda não o conhecia de seus trabalhos iniciais. Mais uma vez, a música teve importância fundamental, com uma cena fantástica com “Free Fallin'”, cuja letra casava perfeitamente com a vida do personagem. Maguire estava em queda livre, mas todos os envolvidos no longa saíram bem. (Marcelo Seabra, do blog O Pipoqueiro)


Quase Famosos

Penny

O nosso querido Leonardo Carnelos pode achar que estou enrolando para escrever a minha crítica de Fonte da Vida, [só falta esse artigo para completarmos a filmografia do Darren Aronofsky no site] mas ele não sabe que desde 2008, quando o Cinema de Buteco nasceu, estou ensaiando tomar coragem para escrever sobre Quase Famosos, vulgo meu filme favorito. A produção conta a história de um moleque que é completamente apaixonado por música e recebe a chance de acompanhar a turnê de uma de suas bandas prediletas. OK? Não, calma. Ele é aspirante a jornalista e irá acompanhar essa turnê porque foi contratado pela revista Rolling Stone para escrever uma matéria. Uau, né? Durante a viagem, o pequeno vai se descobrindo e experimentando as coisas boas da vida – e elas realmente envolvem sexo, drogas, rock n’roll e muita diversão. (Tullio Dias)


Vanilla Sky

vanilla sky destaque

Na segunda parceria com Tom Cruise, Crowe decidiu refilmar um elogiado longa-metragem espanhol. Para muitos, não apenas foi desnecessário, como o resultado ficou inferior. Felizmente não é o nosso caso: Vanilla Sky é sensacional. Com um elenco afiado (Penelope Cruz e Cameron Diaz arrasam!), um roteiro daqueles que surpreendem o espectador ao ponto de praticamente obrigar por uma revisão imediata, e, claro, uma trilha sonora inspirada. Para todos aqueles que apreciam produções pouco convencionais sobre babacas que descobrem o sentido da vida, Vanilla Sky é indispensável! (Tullio Dias)


Tudo Acontece em Elizabethtown

tudo acontece em elizabethtown destaque
Como é que um filme tão doce pode despertar tanto ódio nas pessoas? Se você acha isso um absurdo ou uma grande novidade, saiba que esta obra de Cameron Crowe é considerada quase que ofensiva para boa parte da tribo dos cinéfilos e críticos de cinema. E importa se as ponderações da turma mais entendida estão certas? Sim e não. Importa para você aprender mais sobre linguagem, e se você gostar disso. Do contrário, com seus milhares de defeitos e a presença de Orlando Bloom, Tudo Acontece em Elizabethtown é um amor de filme com uma bela história envolvendo um cara perdido que é salvo por uma garota incrível – e apaixonante. Para todos aqueles que já experimentaram se apaixonar perdidamente, gastar horas ao telefone e correr de madrugada para um encontro improvável, o filme já seria imperdível, mas por trás das câmeras temos um cara capaz de incluir milhares de referências musicais em diversas cenas, como a simples menção do nome do anjo Jeff Buckley. Como não amar? (Tullio Dias)


Pearl Jam Twenty

Pearl Jam Twenty

O contato de Crowe com o grunge, a alcunha do movimento musical que revelou o Nirvana, Alice in Chains e Soundgarden, além do próprio Pearl Jam, começou cedo. Antes do estouro do disco Nervermind, [do Nirvana] ele se mudou para Seattle para acompanhar de perto o nascimento daquela cena. A sua intenção era fazer um filme, mas os estúdios vetaram qualquer coisa relacionada. Mas depois que “Smells Like Teen Spirit” revolucionou a história da música para sempre, os produtores voltaram atrás e liberaram a produção de Singles – Vida de Solteiro. O filme estrelado por Matt Dillon tinha a presença de Chris Cornell e metade da cena grunge da época. Foi o primeiro contato de Crowe com o Pearl Jam, que liberou duas faixas para a trilha sonora do filme: “State of Love and Trust” e “Breath”. Foi o começo de uma longa parceria, que incluiria ainda a gravação do clipe de “The Fixer” no lançamento do disco Backspacer, de 2009.

O documentário reúne diversas imagens do acervo particular da banda e outros registros históricos, como as aventuras de Eddie Vedder se balançando no alto do palco, a banda Temple of the Dog, o efeito Nirvana, e as brigas da banda com a Ticketmaster. Curioso notar como Vedder era um jovem tímido e franzino, e como evoluiu (para melhor) com o passar dos anos. E as famosas brigas internas também estão lá, como não podia deixar de ser em todas as bandas que se prezem. (Tullio Dias)


Compramos Um Zoológico

compramos um zoo destaque
OK. Cameron Crowe ainda não conseguiu recuperar seus feitos do passado, como em Jerry Maguire ou Quase Famosos. Foram anos afastado tentando se recuperar psicologicamente do fiasco em Elizabethtown e Compramos Um Zoo foi lançado no mesmo ano em que o cineasta dirigiu Pearl Jam Twenty e The Union. Parecia promissor, mas na verdade era apenas uma produção fofinha digna da sessão da tarde e que não deixou lembrança para ninguém que não fosse apaixonado por animais e pelo trabalho de Crowe. Nem mesmo o elenco forte formado por Matt Damon e Scarlett Johansson deu conta de segurar o tranco e o diretor frustrou seu público mais exigente mais uma vez. No entanto, aqueles cegos, digo, menos exigentes, permaneceram ao seu lado e encontraram a doçura com que Crowe conduz as suas histórias.