– Fale um pouco de você. Como ficou sabendo da vaga?
Foi um acidente de carro, pensou. Mas, isso ela não podia contar. O trânsito estava pesado e ela tinha uma reunião com um gerente de uma startup. Não era bem uma reunião, precisava devolver uma apostila do curso de mindfullness que pegou emprestada e decidiu aproveitar para pedir uma oportunidade. Não entendia nada de fabricação de cerveja, mas era jovem, esforçada e apreciava um bom chope artesanal. Já era um começo. Se conseguisse defender seu ponto de vista, quem sabe? O trânsito é que não ajudou. Felizmente, o susto foi maior que o estrago. Apenas um retrovisor arranhado que ela conseguiu encaixar de volta no lugar. Mas ao encaixar sentiu uma folga – deve ter quebrado uma pontinha de nada, deduziu.
Agora era enfrentar a fúria do motorista que estacionou o carro e caminhava em sua direção. Não tinha a menor condição de pagar pelo conserto. Poderia conversar, tentar explicar, quem sabe uma boa história o desarmasse?
Ao levar a mão em torno do pescoço, o homem aparentava dor. Será que com a freada o corpo ricocheteou? E se ele tivesse se machucado? Despesas médicas, nem pensar. Havia parado de pagar o plano de saúde, estava sem cobertura, não teria a quem recorrer.
Mas, a dor era outra. Djair tinha acabado de levar um toco da noiva. Fora trocado por outro, faltando apenas dois meses para casar. Convites na rua, lua de mel parcelada e uma tristeza que não parecia ter fim. Contava e chorava. Tinha chegado em casa mais cedo, com flores, quando encontrou a parceira… Mal conseguia completar a frase e pediu desculpas pelo constrangimento. Não costumava falar com estranhos e no entanto…
Ela nunca tinha visto um homem tão frágil. Misturado a detalhes e recordações, repetia sem cessar, como um mantra: ela era tudo pra mim… Pediu desculpas novamente e a convidou a tomar um café na Starbucks da esquina.
O frappuccino também evocava a memória de Sonia, esse era o nome da noiva que causou tanto estrago. Sem que se desse conta, a hora havia passado e ela havia perdido a oportunidade de batalhar uma vaga na equipe da cerveja artesanal. Queria ao menos ter avisado, pois havia prometido devolver a apostila naquela manhã. Que dia! Melhor ajudar Djair, afinal, ele nem mencionou o retrovisor. Ela tinha escapado dessa. Num gesto ousado, ela tirou o frappuccino das mãos de Djair, levantou-se da mesa e jogou a bebida no lixo. Ao retornar, encarou Djair com firmeza e suavidade, enquanto afirmava:
– Você pode controlar um elefante louco,
você pode calar a boca de um tigre,
até mesmo montar em leões e brincar com cobras.
Pela Alquimia, você pode aprender a se sustentar,
você pode vagar pelo universo incógnito,
você pode andar sobre as águas e viver no fogo,
mas o poder de controlar a sua mente é melhor e mais difícil.
Você pode.
– Como assim? Djair perguntou ainda impactado pela força das palavras. Então, disse que ele precisava se concentrar no presente, com a mente atenta ao que estivesse acontecendo no momento.
– É simples, faça do jeito que você conseguir. Esquece o passado. A Sonia ficou no passado e você não transita mais lá, porque seu foco é o agora. Dá para entender?
Os olhos de Djair se iluminaram.
– Pode repetir?, pediu Djair enquanto anotava as palavras num guardanapo.
Feliz com o resultado, ela entendeu que havia vencido uma barreira importante e criado um vínculo com Djair. Enternecida, pensou em desabafar. Não era assim que se imaginava aos 29 anos. Sem plano de saúde, acumulando cursos de positividade, gastando dinheiro com coaching e mapas aleatórios, graduada, com MBA em Estatística, mas sem trabalho remunerado. Mas não era sua vez de falar, o foco era Djair.
– Vai dar certo, Djair. Já deu. Se você quiser, pede outro frappuccino. Você vai ver a diferença.
Incrível como funcionou. Após o segundo café, Djair parecia outro homem. Guardou a gravata na mochila, disse que ia dar um mergulho, tirar o dia de folga, espairecer olhando o mar. Ao se despedir, Djair lhe entregou um cartão, caso ela quisesse se encontrar novamente. Atrás do cartão, ela viu um endereço com uma entrevista marcada para as 11h.
Para não arriscar, decidiu pegar um taxi.
Chegando lá, o entrevistador repetiu a pergunta:
– Como ficou sabendo do emprego?
– Eu mesma pesquisei sua empresa, respondeu. Porque temos afinidades, sua filosofia é a mesma que a minha. Tenho certeza de que vou agregar valores…
O entrevistador sorriu:
– Então, começa amanhã?
Mas, ao virar a folha ele encontrou um bilhete preso às suas anotações.
– Djair é o seu nome?
– Djair é meu apelido. Foi meu primo que colocou… Meu nome mesmo é…
SOBRE A AUTORA
DENISE CRISPUN – Carioca, formada em História, enveredou pelas letras, pelo teatro e pela contação de histórias em diferentes formatos. Colaboradora de novelas, escreve também programas de humor. Sem preconceito linguístico ou de estilo, salta do drama à comédia apenas pulando um parágrafo. Curiosa por natureza, vai detectando os deslocamentos. Sua escrita é feita em movimento. E muitas vezes, enquanto escreve, pedala. Passa por mal educada, pois não costuma escutar quem a chama no caminho. Fala muito sozinha, mas nunca está só, pois vive cercada de personagens.